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segunda-feira, 24 de junho de 2024

Artigos

Benjamin Constant, o mentor de nossa República

Caros leitores,
Quando falamos em proclamação da República, um acontecimento de grande importância na história no Brasil, logo vem a figura de Deodoro da Fonseca, que protagonizou a mudança do regime monárquico para o republicano a 15 de novembro de 1889, colocando fim a 67 anos de Império.
Deodoro, incumbido de proclamar a República, era monarquista convicto, amigo de D. Pedro II e não acreditava que a República resolvesse todos os problemas do Brasil, porém era o único chefe das Forças Armadas com autoridade suficiente para confrontar o governo imperial. Estava velho e enfermo, quase sem fôlego, vítima de uma dispneia. Muitos não acreditavam que ele conseguisse montar no cavalo e depor o Gabinete do Visconde de Ouro Preto. No entanto, assim o fez, destituiu o Gabinete de Ouro Preto e, ainda confuso, retorna para casa e vai dormir.
Apesar disso, no quadro pintado por Henrique Bernardelli, Deodoro foi imortalizado montando um cavalo baio, com o braço direito esticado segurando um quepe e, passa para a história, como um gesto de ‘Viva a República’, embora a obra fosse alvo de grande polêmica desde os primeiros dias da República. Ela deixou vários colaboradores e incentivadores do novo regime como coadjuvantes e, até considerados injustiçados, entre eles Benjamin Constant. Ele foi o mentor, como define o historiador José Murilo de Carvalho, “o catequista, o apóstolo, o evangelizador, o doutrinador, a cabeça pensante, o preceptor, o mestre, o ídolo da juventude militar”. Em 1889 era um homem de grande prestígio no Rio de Janeiro. Na ‘Mocidade Militar’, sua presença serena ajudava a moderar os ânimos e dar algum rumo à crise deflagrada pela ‘Questão Militar’; além de ser admirado por muitos, entre eles, o imperador D. Pedro II.
Benjamin Constant Botelho de Magalhães, nasceu em Niterói a 18 de outubro de 1933, conforme a enciclopédia ‘Barsa’, pois há divergências em diversas obras biográficas consultadas, quanto a data de seu nascimento. Era filho de Leopoldo Henrique Botelho de Magalhães, voluntário do Exército Português, que ao ser transferido para o Rio de Janeiro, em 1822, aderiu às forças comandadas por D. Pedro I e decidiu permanecer no Brasil. Seu nome foi uma homenagem a Henri-Benjamin Constant de Rebecque, o escritor, pensador e tribuno francês, cujas ideias inspiraram a introdução do Poder Moderador na Constituição brasileira de 1824. Órfão aos 13 anos, assumiu os encargos da família, passando a lecionar. Em 1852, ingressou na Escola Militar, mesmo não tendo inclinação para esta carreira, mas era a única alternativa para concluir, gratuitamente, os estudos.
O nosso homenageado foi militar, engenheiro, professor de matemática e político, pertencente à “Mocidade Militar”, era adepto, como os demais Republicanos e intelectuais brasileiros, à doutrina positivista do filósofo francês Auguste Comte, muito prestigiada no século XIX, cujo conjunto de ideias filosóficas e políticas seduziam e inspiravam, em especial, o meio militar, com o lema “Ordem e Progresso”.
Segundo, Renato Lemos e Celso Castro, inserido no livro ‘1889’, de Laurentino Gomes, assim descrevem Benjamin Constant: “era um homem corpulento, [. . .] media apenas 1,55 metro. Usava óculos ovais, sem hastes, sustentados por um cordão preso à casaca. O bigode espesso caía sobre os cantos da boca, emoldurando um cavanhaque ralo. Andava e falava de forma cadenciada, com voz cavernosa. A expressão era séria, compenetrada. Em lugar da farda militar, preferia sair à rua sempre de sobrecasaca preta, calça e gravata da mesma cor. Frequentava pouco os lugares públicos e nunca bebia álcool”.
A sua intensa participação no movimento de 15 de novembro levou-o a ocupar, em 1889, o Ministério da Guerra, e, posteriormente, o da Instrução Pública, em 1890, onde promoveu a primeira reforma de ensino sob o novo regime. Idealista, inadaptado à política, recusou-se a concorrer a postos eletivos, porém deixou o legado de sua integridade moral e da firmeza de convicções com que defendeu as suas ideias.
Faleceu a 22 de janeiro de 1891, no Rio de Janeiro, sendo sepultado no Cemitério São João Batista.

 

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador
e membro da ABC – Academia
Barretense de Cultura , Cadeira 29.

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