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sexta-feira, 27 de maio de 2022

Artigos

Barretos perde Mr. Wellington: “Nasci inglês, quero morrer barretense…”

Barretenses novatos e mais jovens precisam conhecer detalhes de nossa história, pautada em figuras que fazem jus à existência destacada de nossa cidade, no cenário nacional.
Quando se imagina que Barretos apenas leva fama por conta de sua grande Festa do Peão de Boiadeiro ou de ser um centro socializado de tratamento de câncer, esses fatores existem da década de 60 aos dias de hoje, num tempo relativamente recente dentro da uma avaliação histórica do município.
Mas, o correto é saber que a grande alavanca de seu nome iniciou-se em princípios do século passado, figurando como um dos primeiros centros abatedores de gado bovino do País, e seu principal entreposto fornecedor de carne.
O Frigorífico Anglo (hoje Friboi) que foi construído por brasileiros, logo foi adquirido por Lord Vestey (Inglaterra) cujo objetivo principal era exportar para lá um dos mais qualificados cortes de carne exigidos pelo mercado europeu.
Com isso, o Frigorífico Anglo, por décadas recebeu administradores ingleses, imigrados ao nosso Brasil e estabelecendo-se em Barretos, dotando essa atividade com rigorosa gestão ao estilo inglês, mesclando-se com o eficiente operário de nossa “Chãopretana Terra”.
Diversas personalidades, então, aprenderam a gostar do Brasil, de Barretos e de nosso “way of life” vindo criar laços de amizade com muitos de nós. Na esteira sócio cultural, ganhamos como atração um clube típico Inglês, com direito a um belo campo de golfe, quadras de tênis, piscinas, cricket e salas de jogos de mesa.
Na verdade, atendia sim ao lazer mais reservado dessas famílias inglesas, porém, sempre aberto a barretenses que passaram a conviver amistosamente com muitos dos Misters tornados amigos.
Correndo risco do esquecimento injusto, figuras cativantes podem ser citadas como Mr. Simon, Mr. Cruden, Mr. Griffith, Mr. Anderson, Mr. Stytler, Mr. McNabb, Mr. Cunningham, Mr. Murchie, muitos deles casando-se com brasileiras e formaram famílias que enfeitaram e, ainda hoje, enfeitam a nossa sociedade.
Mas, vale ora homenagear, uma pessoa que há poucos dias nos deixou indo habitar a Casa do Pai, com vividos 94 anos de uma vida eficiente e responsável na missão de trabalhar no famoso Frigorífico, criar sua prole junto a Mrs. Wellington. Já não iremos mais admirar aquela figura idosa, alta, educada caminhando pelas nossas calçadas do Bairro Primavera: Mr. Charles Walter Wellington. Trajando sempre ao estilo inglês, com seu típico chapéu, sua bengala e serenidade ao caminhar.
Quando, por muitos anos, aprendi a admirar o arrojo dessas figuras por deixarem o rico solo inglês para tão distante virem construir uma história de vida, entendia porque milhões de outros britânicos, num sentido até imperialista, buscaram a Índia, o Sul da África, a Austrália, o Saara do Oriente Médio, por algum tempo, sem dizer das exuberantes colonizações da América do Norte, incluindo o Canadá.
Importante saber que na esteira desse mote econômico da época, e por influência dessa visão de ingleses, São Paulo teve o beneficio de ser servido por uma Cia de Estrada de Ferro construída ao modelo inglês com serviços do padrão que existia, à época, no mundo todo.
Barretos e barretenses ganharam frota de transporte de carne resfriada, empresa de ônibus para transporte municipal, fornecedores atacadistas com matrizes na rica Zona do Mercado em São Paulo, além da garantia de empregos para milhares de operários.
Frigorífico Anglo e grandes propriedades rurais criadoras de gado, em determinado momento, foram vendidos sob ordens do Lord Vestey: alguns Senhores Ingleses foram embora Brasil afora, porém, uma vontade convicta de Mr Wellington foi cumprida de seu desejo confessado: “Nasci inglês, mas morrerei barretense…”, pronunciado numa justa homenagem em vida.
Se o porte de nosso recebimento, a esses importantes imigrantes, não é tão exuberante, o barretense de hoje precisa saber que a pecuária de corte, os centros abatedores de gado e a marca Barretos, antes de tudo, foi alavancada por essa atividade e espalhada para todo o País, sendo reconhecido como suporte de nosso atual desenvolvimento sócio econômico.
Quer queira, quer não, nos dias atuais, Barretos reúne dois dos maiores frigoríficos a abastecerem o mundo, 100 anos depois de adotada sua vocação, sucedida pela migração desses polos para Araçatuba, P. Prudente, Campo Grande e hoje invadindo o Mato Grosso e a Rondônia.
E o orgulho disso, é poder dizer que Barretos foi o “berço” ao ser enxergada como fonte de vida (leia-se, carne) para o coração europeu (como sempre foi o Reino Unido) e vislumbrada por um Lord inglês e seus amigos que ficaram, também, nossos amigos.
Que Deus receba Mr. Wellington, ao lado de Mrs. Wellington, em sua Graça Infinita, legando-nos a amizade de seus filhos Steve, Chris e Anthony, ora girando em negócios do gênero pelo mundo afora, sem deixarem de apreciar nosso querido Chão Preto.

 

Dr. Fauze José Daher
Médico-Cirurgião e Advogado
Cidadão Benemérito de Barretos

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