Artigos
Bagunça organizada
Quando éramos pequenos, nossas mães viviam nos falando “pegue esse sapato, tire ele do meio do caminho, vem arrumar essa bagunça”, mas isso não era importante, pois, se não arrumássemos, elas iriam lá e arrumariam, claro que acompanhado de um sermão. Por vezes fazíamos o que nos era solicitado, mas tínhamos a testa franzida, em sinal de desaprovação, pois o que queríamos era estar brincando e não separando coisas que nós mesmos deixamos espalhados pela casa. Ali aprendemos uma valiosa lição: o valor de uma boa organização.
Com o passar do tempo, aprendemos a colocar os sapatos na sapateira, ou no lugar reservado a eles; as roupas que antes estavam no chão inserimos no cesto, o qual estava ali justamente para que essas roupas não ficassem espalhadas; dobramos as cobertas, arrumamos a cama, pois ninguém merece cama desarrumada, mesmo sabendo que no final do dia, teríamos que desorganizá-la novamente para dormir; lavamos as louças, pois fomos nós quem as sujamos; limpamos a casa, e, se não o fizermos, ninguém fará por nós; as roupas são postas na máquina de lavar e por aí seguem-se os afazeres.
Muitas lições nos ensinaram nossas mães, mesmo que as tenhamos aprendido a contragosto. Mas existe algo que é particular, e isso nem mãe, nem pai, nem ninguém é capaz de desfazer: a nossa bagunça pessoal, que, à primeira vista parece ser uma baderna, mas que na verdade possui certa organização.
Quando fazemos uma faxina, dificilmente desfazemo-nos de tudo o que temos: papéis, notas, desenhos, convites, etc., sabemos onde colocamos cada uma dessas coisas, e, mesmo que aos olhos alheios, pareça uma bagunça, ela é organizada para nós que somos seus donos.
Mande alguém pegar algo em meio a “sua bagunça”, a pessoa não irá conseguir localizar, mas se você for lá, em menos de um minuto encontrará o que procura. E quando você faz uma faxina, muda as coisas de lugar ou se livra de quase tudo?
Em meio ao caos de papéis que se encontram em cima da mesa, pilhas e mais pilhas de livros, documentos e mais documentos, é melhor que ninguém mexa em sua bagunça, pois ela está de tal modo organizada que apenas você tem o dom de localizar o que quer.
Nossas mães tinham e têm o dom da localização, pois quando perguntamos a elas: “mãe, onde está minha coisa?”, mesmo sem designar o que seria essa ‘coisa’, ela sabia e sabe exatamente o que procuramos, e, em pouco tempo, o que antes estava perdido é encontrado.
Por favor, não mexa na minha bagunça, pois me perderei tentando encontrar o que antes eu sabia onde estava. Se mexer, ouvirá: “Ah, não! Você bagunçou o meu quarto, as minhas coisas e não consigo achar nada aqui”. Nossas mães nos ensinaram organização, mas acabamos por possuir a nossa própria, e esta, às vezes, se apresenta em forma de uma ‘bagunça organizada’.
Padre Flávio
Aparecido Pereira
Vigário Paroquial
na Catedral do
Divino Espírito Santo