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segunda-feira, 04 de março de 2024

Artigos

AUÊRY RESERVA DA JAQUEIRA – PARTE 2

E na Reserva da Jaqueira, nosso grupo pode saborear do chá, consumir batatas doces e mandiocas acompanhados por farofa preparados e oferecidos pelo pajé. Ainda tivemos a oportunidade de ouvi-lo relatar fatos com toda sua sabedoria nativa, comer do peixe assado tendo como tempero apenas o sal e o sabor das folhas na qual ele foi envolvido antes de ir para o forno de barro, percorrer trilha por entre a mata, dançar com indígenas e demais turistas, vestir-nos com seus trajes, fazer a pintura facial, e não pensem ser tudo a mesma coisa pois, cada pintura tem seu significado, evidenciando em cada face pintada o seu estado amoroso: casado, solteiro, etc. Ali conhecemos um pouco do como os relacionamentos afetivos tem início, – uma pequena pedrinha atirada aos pés do outro pode desenrolar-se um romance, uma flor também atirada registra um pedido de casamento e em sendo aceito o pedido, quais as tarefas impostas ao homem para poder casar-se com a mulher desejada. Mas isso deixemos para outra história.
Ali, entre estas, outras e outras muitas, o depoimento de boas-vindas da guerreira Nitynawã Pataxóuma, autora do livro, As guerreiras na história Pataxó, atinge-nos como uma catarse, o nirvana de nossa visita. Não teve como não nos emocionarmos ouvindo-a relatar as dificuldades, as dores e o luto sofrido até praticarem o turismo sustentável, o turismo que lhes permite dar continuidade à sua história.
Naquele lugar onde muitos foram assassinados, estuprados, banidos de sua terra, ameaçados com a perda de sua identidade cultural, hoje Nitynawã empresta a voz para nos ensinar a importância do equilíbrio da natureza, do respeito aos animais, da manutenção do ecossistema que sustenta toda a cadeia de preservação planetária.
A guerreira indígena pataxó, nos relata o percurso vivido desde o dia em que foram banidos, até a recente luta contra o Marco Temporal, mantendo a serenidade de ter combatido o bom combate. Sua fala perpassa por todas as invasões, incluindo a ocorrida em 1951, quando foram atacados, mortos e abusados por mais de 30 dias numa tentativa de expulsá-los de seu lugar. Nitynawã relata que seus acordos não necessitavam de lavratura, apenas da palavra e o quanto isto determinou o exilio, a expulsão de suas terras. Os indígenas firmam contratos fazendo uso das palavras, papéis nada lhes significavam, pelo menos até aquele momento.
Para que esta história não se repita, atualmente, existem indígenas advogados, assistentes sociais, enfermeiros. As escolas ensinam a língua nativa e o português. As crianças aprendem e cultivam o amor ao meio ambiente, e aos animais. Os pataxós não matam onças, mas celebram suas reproduções. Indígenas trabalham, não são vagabundos como se diz por aí e a cada um de nós é dado o direito para viver e reproduzir a ancestralidade da sua cultura.
Nitynawã Pataxóuma sorrindo, nos agradece por termos feito um programa de índio. Sim, fizemos um programa de índio com a mente aberta para conhecer um pouco mais de suas lutas e desafios. Posso confessar que voltamos com o coração apertado, mas cheios de esperança, cientes de que a luta continua. Com humildade ela também nos agradece pela visita e pela contribuição na manutenção de sua cultura e espaço. Não querida, Nitynawã Pataxóuma, nós a agradecemos por cuidar de nós e de nossa Terra com amor e respeito. Lhes devemos também isso, entre tantas e impagáveis dívidas. Auêry! Obrigada!

Sada A. Ali Psicóloga
CRP. 06/166892

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