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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Artigos

Armadilhas da Copa para a prostituição infantil

Por João Eichbaum
A senhora Xuxa, que exibe nos cabelos as eficientes reações da química, deve ser uma pessoa extremamente prendada e dona de uma sabedoria que dispensa técnicos em educação, pedagogos e outros cientistas da área, quando o tema é infância e juventude. Por causa da sábia madame, o pastor evangélico e deputado Eurico, foi defenestrado da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, sob a acusação de ter sido “intolerante e desrespeitoso”. 
Ele havia classificado como “um desrespeito às famílias do Brasil”, a presença teatral de Xuxa na Câmara para dar pareceres sobre a “lei da palmada”. E, para justificar sua intervenção, o parlamentar avivara a memória dos circunstantes com a lembrança do filme em que uma personagem, encarnada pela excelentíssima senhora, seduzia um menino de doze anos.
Não sei se foi para resgatar a honorabilidade de Sua Senhoria dona Xuxa, ou porque ela represente um paradigma de moral sexual, ou porque sua sabedoria seja capaz de consertar os desarranjos do universo que o Palácio do Planalto a recebeu. Ao lado da presidente deste impoluto país, lá estava ela, abrilhantando com seus cabelos dourados a sanção da lei que declara crime hediondo “a exploração sexual de crianças e adolescentes”.
O jornal Folha de São Paulo saiu a campo para conferir os efeitos da nova lei e estampou coisas estarrecedoras em suas páginas. E foi de lá do norte e do nordeste que provieram as histórias mais degradantes. Foi de lá, dos cemitérios de seringais, dos manguezais, do sertão pelado de calor e miséria, da terra onde apodreceu o que sobrou do umbigo do “doutor” Lula da Silva, que surgiu a matéria veiculada no jornal.
Em Manaus, onde foi erguida a “Arena Amazonas”, ao custo de mais de 600 milhões de reais e três mortes por acidente de trabalho, menina frágil, com feições e corpo de criança, espera “faturar mais dinheiro” na Copa. Outra, conta com turistas endinheirados, americanos, ingleses. Em Recife, menino que se prostitui desde os 13 anos, espera “maricóns e gringas finas”. Tanto nas praias de Fortaleza como no interior do Ceará, adolescentes, desfilando com minissaias e shortinhos apertados, mostrando a barriga, não escondem a esperança de se darem bem com o aluguel do corpo durante o evento da FIFA.
Entrementes, os Estados Unidos, sem a menor consideração para com o “pibinho” do Mantega, advertiam zelosamente seus cidadãos e o mundo de que no Brasil nem as “camisinhas” são confiáveis. E, isso posto, concitava-os (que futebol, que nada) a resguardarem seus desejos sexuais usando os resistentes preservativos norte-americanos.
Sem educação, sem medidas concretas para a erradicação da miséria que empurra meninos e meninas para o mercado do sexo, não há como melhorar a imagem do Brasil. Sua má fama, construída em 1500, quando invasores portugueses, em jejum de mulher por mais de quarenta dias, deram de cara com índias nuas, é hoje alimentada pelos comerciais de bumbuns. Alguém precisa dizer aos políticos que tal fama, assim arraigada, não se destrói com leis, nem com os cabelos loiros da Xuxa.
 
João Eichbaum é advogado e autor do livro Esse Circo Chamado Justiça.

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