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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Artigos

APÓS A COPA

* Amadeu Garrido
O homem sofre, mas persiste, prossegue no enfrentamento dos desafios comuns à humanidade. Nossa existência maravilhosa é aleatória e imprevisível. A evolução da vida consciente ocorreu no fio da navalha. Uma colisão cósmica criou a lua. Não fôra a queda de um meteorito, encontrado numa cratera no México, que produziu cinzas espessas a ponto de obstacular a luz solar, esfriar o planeta e dizimar todos os animais, com exceção dos mamíferos, talvez ainda estivéssemos dominados por dinossauros. Nossa localização precisa no sistema solar foi determinante no aparecimento da vida. Esta se desenvolveu em apenas 150 milhões de anos, entre bilhões. Um “apagão às avessas” deu origem aos organismos unicelulares, que, rapidamente, povoaram o planeta, reproduzindo-se horizontal e não verticalmente. Em suma, poderíamos, simplesmente, não estar escrevendo isso. Por todos esses fatores e muito mais, não só filósofos como físicos hoje dão crédito ao que disse Jung: a vida é um milagre.
Nós, brasileiros, não sofremos as tristes experiências europeias das duas grandes guerras mundiais. E oxalá jamais as suportemos. Na primeira, França e Alemanha, com forças proporcionais, ficaram empatadas nas trincheiras, onde a maioria de sua juventude morreu atacada por bactérias e comida por ratos. Encerrado o combate, porém não resolvidas suas causas, pais, ainda que desconsolados, tocaram a vida em frente; certo que sob a tensão do “intermezzo” que conduziu à segunda confrontação mundial e sua conhecida tragédia.
Uma semana após a ocupação de Berlim sob destroços e a rendição da Alemanha, o bom povo alemão, que não concordava com o nacional-socialismo, já reabria suas lojas em ruas destroçadas, iniciando-se um processo de reconstrução nacional, que hoje faz do país o mais desenvolvido da CE. E se proíbe da mínima lembrança das inomináveis guerras, preocupa-se com a paz mundial e com o bem-estar das coletividades, ressalvadas, como sempre, as diferenças de perspectivas políticas que, sem recíprocas tolerâncias, não esteiam nenhuma democracia.
É inaceitável que um povo fique abalado em seu “bom ânimo” em razão de vicissitudes de um esporte adorável, mas, simplesmente, esporte, lazer; como disse o técnico de uma das seleções, a coisa mais importante do mundo, entre as menos importantes.
Esqueçamos, pois, de maracanazo, mineirazo. Não há pátria de chuteiras ou em chuteiras, grande Nelson Rodrigues. Há nações que se querem organizadas, pacíficas, prósperas e livres.
Encontramo-nos às vésperas de uma eleição fundamental para os destinos do Brasil. Dela não somos meros expectadores. E afrescos corporais não tomam o lugar do cérebro. É necessário refletir seriamente sobre as correntes eleitorais que almejam o poder; ensejar que a crítica ferreamente racional assuma o lugar da paixão, nas avaliações sobre a disputa pela ascendência ao direito de governar.
O tempo é curto e a matéria é vasta. Não obstante, os formadores de opinião, aqueles que dominam o mínimo de conhecimento necessário a uma correta certificação dos fatos políticos, estudantes, professores, intelectuais, profissionais liberais, cientistas etc, devem contribuir honestamente para que nossos compatriotas, privados de capacidade cognitiva de fenômenos complexos,possam fazer as melhores opções possíveis.
Para tanto, é necessário que entendam que as ideologias morreram. É falso, no Brasil, o posicionamento entre esquerda e direita. Entre nós parece não sobreviver essa dicotomia, talvez presente em outras plagas, como sustenta Bobbio. Nosso país carece de um governo pragmático, ético, em que o interesse popular prevaleça sobre os interesses dos próprios políticos; em que sejam feitas as reformas necessárias desde o plano real, mas profundas, que deixem em segundo plano os projetos de poder, conveniências espúrias de governos federal, estaduais, municipais, de parlamentares e organizações intermediárias que mamam nas tetas do Estado; em que os servidores públicos e os Ministérios, por exemplo, sejam em número rigorosamente proporcional às necessidades nacionais. Tarefa árdua, à primeira vista utópica. Ocorre que não há transformações sem as luzes de uma utopia, por mais distantes e apagados que estejam seus brilhos.
Se não conseguirmos construir uma democracia avançada, organizada, sem as infames guerras fiscais entre os Estados-Membros, conjurado o monstro da inflação, com saúde e educação para todos, de modo sustentável, compartilhando as preocupações universais com a preservação do clima e da biodiversidade, substituindo-se o uso das fontes de energia fósseis pelo aproveitamento das matrizes renováveis e limpas, então poderemos deixar nossa tristeza correr pelos olhos. Não pela goleada no futebol.
 
Amadeu Garrido de Paula é advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho. 

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