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segunda-feira, 20 de maio de 2024

Artigos

Aos pais que amam sem medo

Diante de um mundo de abissal incerteza, às vezes, o nosso repertório fica pequeno para lidar com as coisas da vida. Costumo buscar nas memórias aquilo que me faz forte. Na minha timeline do passado, surgem flashbacks potentes de amor, que me lembram de onde eu vim, quem eu sou e do que sou feita.
Hoje, como não podia deixar de ser, meu pensamento é todinho tomado pelas lembranças do meu pai. Ele me deixou há tempos, mas não sem antes me ensinar muitas e muitas coisas sobre o bom da vida, mesmo nos momentos mais difíceis.
Meu beijoqueiro favorito não era perfeito e ainda bem que não era. Com ele, eu aprendi a nadar, a dirigir, a rir dos próprios erros. Alto astral sempre, dono de um bom humor contagiante, mesmo quando a saúde faltou. Meu pai era música. Amava Luiz Gonzaga e Quinteto Violado. Sua risada era canção e me lembrar dela é sentir um sopro de vento bom com cheiro de maresia e de feira.
Era também um leitor atento e voraz de jornais e revistas como O Cruzeiro e Manchete. Olho em volta da redação e sinto essa herança boa do gosto pelo jornalismo, pelas notícias, pela criatividade, pelas coisas do mundo, pela palavra, pelas histórias das pessoas.
Agora, às vésperas de uma campanha eleitoral que promete ser um tanto ruidosa, me lembro do meu pai como um eleitor consciente, que dava um valor inestimável ao voto. Ele acompanharia atentamente os noticiários e pesquisaria os candidatos para fazer a melhor opção. Não desprezaria nunca sua chance de escolha e respeitaria o resultado das urnas. Dentre as lições mais importantes que ele me deixou, o valor da democracia talvez seja o mais precioso.
Meu pai amou sem medo. Os filhos, os netos que conheceu e, tenho certeza, também os que não conheceu. No seu repertório, que agora é meu, não havia violência, nem sacrifício que não pudesse ser tolerado, nem tristeza que não pudesse ser superada, nem falta de esperança. Que bom tê-lo na minha vida. Desejo hoje que honre seu pai e tudo o que ele é capaz de ensinar, mesmo nos momentos difíceis.

 

 

Ana Dubeux.
Jornalista,
Diretora de Redação

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