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sexta-feira, 19 de abril de 2024

Artigos

Alterofobia, fruto do hiperindividualismo

III PARTE – AS CAUSAS E O DIAGNÓSTICO

O que nos tem levado a esse tipo de comportamento são a destruição da coletividade e a construção do indivíduo solitário e autossuficiente – ou, Como diz o papa Francisco, autorreferencial –; a construção de um inimigo comum, como o único elemento aglutinador, na sociedade, capaz de retirar as pessoas do seu subjetivismo individualista; a mentalidade de que o conflito e a guerra são geradores de vida e desenvolvimento; a  ideologia da invisibilização da inimizade social e a normalização da competição e da meritocracia, dando assim permissão para eliminar o outro.

O triste diagnóstico que fazemos é que nós, na nossa sociedade atual, sofremos de

grave alterofobia, ou seja, medo, rejeição e aversão a tudo aquilo que é outro, tudo o que não sou eu mesmo. A palavra é estranha, mas a situação que ela indica é real, presente e incisiva dia após dia, alimentando mentalidades e gerando atitudes. A outra pessoa, a outra causa, o outro sonho, o outro esforço, tudo, enfim, que não seja eu mesmo, acaba por se tornar desnecessário, ameaçador, destinado à rejeição e até mesmo à eliminação e extinção.

Resumindo, sofremos de alterofobia, causada pelo hiperindividualismo. Esse é o diagnóstico. É isso que precisamos atacar. Sofremos de um agudo processo de subjetivação, isto é, a única ótica que importa é a minha. Rejeitamos tudo que é diferente

de nós mesmos porque deixamos crescer demasiadamente, num processo de inchaço, nosso próprio eu, desencadeando, assim, um processo de fechamento ao outro. Não há dúvidas de quanto é positiva a individualidade; isso não se põe em pauta. No entanto, aquilo que conquistamos como um grande valor passou a ser como um dos nossos maiores limites. Vivemos fisicamente próximos, mas absolutamente distantes, num império das individualidades, e aquilo que é comum parece ter caído em desuso.

A questão é tão grave, que o papa Francisco já alertou: “Neste mundo que corre sem um rumo comum, respira-se uma atmosfera em que a distância entre a obsessão pelo próprio bem-estar e a felicidade da humanidade partilhada parece aumentar: até fazer pensar que entre o indivíduo e a comunidade humana já esteja em curso um cisma” (FT 31) (Revista “Vida Pastoral, Paulus, n. 355 – amanhã: FINAL – A RECEITA E O REMÉDIO).

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