sábado, 28 de novembro de 2020

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‘Agora, Inês é morta’

Uma história portuguesa, com certeza!

Caro leitor,
A expressão título deste artigo é muito conhecida, faz parte da língua portuguesa e significa ‘não adianta mais’ ou ‘é tarde para tomar alguma atitude’.
Muito se tem de história, bem como de lenda. É envolta em controvérsias, contada e cantada em versos por trovadores e menestréis medievais, em português arcaico, isto é, quando falava-se e escrevia-se em galego-português, nas crônicas históricas, entre outras, de Fernão Lopes à Renascença com Camões, pai da moderna língua portuguesa, em ‘Os Lusíadas’.
É uma história de amor, paixão, morte, vingança e de certa forma, macabra e até pitoresca. O amor de um príncipe e uma plebeia, em terras de além-mar, no século XIV. De um lado, o príncipe D. Pedro, filho do rei D. Afonso IV e herdeiro do trono português, e de outro, a plebeia Inês de Castro, filha bastarda de um cavaleiro da Galizia, cujos irmãos eram a favor da reanexação de Portugal pelo Reino da Espanha. Ele, D. Pedro, era casado com D. Constança Manuel, filha de D. João Manuel de Castela, príncipe de Vilhena. Ela, Inês de Castro, a ‘linda Inês’ nos versos de Camões. Enfim, uma beldade! Era uma das aias de D. Constança e o envolvimento amoroso de ambos causou um falatório no Reino, o que provocava um desconforto na coroa portuguesa e até uma ameaça à diplomacia, pois muitas ‘fake news’ se espalharam pela Península Ibérica. Como medida de precaução, D. Afonso IV ordenou o exílio de Inês, no castelo de Albuquerque, na fronteira castelhana. Mesmo assim, apesar da distância, o romance não esfriou, e os amantes continuaram a se corresponder com frequência.
Em 1345, durante o parto de seu terceiro filho, D. Constança veio a óbito, e deixou o rei preocupado com a influência de Inês na vida política do príncipe. Mesmo contra a vontade de todos, D. Pedro ordenou que Inês voltasse e a assumiu publicamente. Foi uma grande afronta! Em 1355, quando o príncipe se encontrava em uma excursão de caça, seu pai, em uma medida extrema, mandou matar Inês, em uma emboscada. Ao retornar, o príncipe recebeu a trágica notícia da morte de sua amada, seu coração ficou em frangalhos, um grande conflito no Reino foi travado entre pai e filho.
Em 1357, com a morte de D. Afonso IV, o príncipe assume o Trono de Portugal, com o título de D. Pedro I (1357 a 1367). Ele não hesitou, foi ao encalço e assassinou, com requintes de crueldade, os algozes de sua amada Inês. Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, que tinham fugido para o Reino de Castela, foram apanhados e executados em Santarém. O rei mandou arrancar o coração de um pelo peito e o do outro pelas costas, num espetáculo macabro. O terceiro algoz, Diogo Lopes Pacheco conseguiu escapar para a França e, posteriormente, seria perdoado pelo monarca em seu leito de morte, como relata o cronista do Reino e Guarda-mor da Torre do Tombo, Fernão Lopes.
Ainda, devastado pela morte de sua amada, D. Pedro I pediu a exumação do corpo de Inês e a declarou rainha. Em seguida, ordenou a todos da corte que desfilassem diante da ‘rainha-cadáver’ e lhe beijassem mão. Porém, esta dantesca cerimônia, que se tornaria uma das mais vivas no imaginário popular, teria sido introduzida, pela primeira vez, nas narrativas espanholas do final do século XVI.
O fato é que, a 12 de junho de 1.360 na declaração de Cantanhede, D. Pedro I legitimou os filhos, os infantes Beatriz, João e Dinis, ao afirmar que tinha se casado, secretamente, com D. Inês, em 1354, em Bragança. Além disso, mandou edificar dois esplêndidos túmulos, colocados lado a lado, um para ele e o outro para sua amada Inês de Castro, no mosteiro de Alcobaça, na região central de Portugal, para onde transladou o corpo, vindo a juntar-se a ela em 1367. De lá para cá, as posições dos túmulos foram alteradas, e no século XVIII, foram transladados para o recém-inaugurado Panteão Real, uma nova ala do mosteiro, sendo dispostos frente a frente, onde permanecem até hoje. Quando os túmulos foram colocados nesta última posição, mais uma lenda surgiu: ‘que assim estavam para que D. Pedro e D. Inês pudessem olhar-se nos olhos quando despertassem no dia do juízo final’.
Enfim, cantaram poetas e trovadores que D. Pedro I gostaria de ter reinado ao lado dela, mas isso não seria possível, pois ‘Inês é morta’.

José Antonio Merenda
Ator, diretor teatral,
historiador e presidente da
ABC – Academia Barretense de Cultura

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