Ir para o conteúdo

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Artigos

Adeus às divas

Em pouquíssimo tempo, o Brasil perdeu lindas vozes femininas que fizeram a história da nossa musicalidade. Recentemente, partiram: Elza Soares, Gal Costa e Rita Lee. No passado, calaram-se: Maísa e Elis Regina. Da época de “Ouro do Rádio”, ficaram as lembranças de Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso e Ângela Maria. É triste, mas parece que as divas vão embora antes da hora porque, no dizer do poeta lusitano, Fernando Pessoa, “partem cedo aqueles que os deuses amam”.
Infelizmente, essa máxima não consola os fãs que ficam órfãos do talento artístico. A recente partida de Rita Lee, ícone de uma geração, que se impôs pela ousadia, não só deixou um vazio no palco da vida, como passou um recado óbvio: carpe diem, ou seja, aproveite o dia. Em outras palavras, viva intensamente o agora, já que o futuro a Deus pertence.
Afinal, como diz a poetisa (também lusitana) Florbela Espanca, “tudo no mundo é frágil, tudo passa”. Apesar dessa incontestável verdade, Rita Lee, em sua obra musical, sempre combateu o clichê das tragédias previsíveis, como se a fatalidade fosse a única verdade desta vida. Aliás, mais do que mero rock dançante, suas canções sempre nos convidaram a viver intensamente os instantes belos da existência humana — ainda que sejam poucos, porque tudo é fugaz.
Assim, suas inúmeras letras, suas roupas típicas, seu sorriso essencialmente particular, e sua agradável voz, desde os tempos dos “Mutantes”, fizeram de Rita Lee uma artista que não fez da música um “muro de lamentações”; muito pelo contrário, cantou, de modo descontraído, os pequenos prazeres da vida a dois. Dela, guardaremos a alegria de cantar o amor de um casamento longevo, com seu parceiro e marido, o guitarrista Roberto de Carvalho.
No entanto, a saudade dessa talentosa roqueira, não será menor do que a dor que o País sentiu diante do adeus de Elza Soares, a quem público e crítica reverenciaram como a autêntica representante da mulher brasileira. Ou seja, das sofridas mulheres deste País, que muito cedo encaram a dura realidade e precisam provar que são capazes de resistir às agruras de uma sociedade que ainda, em pleno século 21, guarda resquícios do patriarcalismo dos tempos do Brasil imperial.
Porém, antes de ser consagrada, por sua voz rouca inconfundível, Elza enfrentou todo tido de preconceito, inclusive da própria mídia, num tempo em que o machismo davas as cartas. Por isso, a mulher era condenada sem direito a defesa, principalmente se tivesse um relacionamento extraconjugal. Seu tórrido caso como o jogador Garrincha, mais do que notícias, alimentou as páginas de fofocas maldosas dos anos 70. Passados os tempos difíceis, Elza rompeu o carimbo de sambista, pois seu eclético repertório abarcou vários gêneros musicais. Seu talento caiu nas graças de todos e, antes de morrer, em janeiro de ano passado, aos 91 anos, tornou-se cult, admirada pelas novas gerações.
Também não podemos nos esquecer da genial Maria das Graças Pena Burgos ou, simplesmente, Gal Costa, a musa do Tropicalismo, que materializou a beleza não só da baiana, mas da mulher brasileira. Pode até parecer exagero, mas há quem afirme que foi graças a Gal Costa, com o seu estilo próprio de se apresentar nos shows, em que a sensualidade estava à flor da pele, que as brasileiras elevaram a autoestima e passaram a se valorizar mais. Claro que o também baiano, o escritor Jorge Amado, em seus romances ambientados na Bahia, já havia evidenciado o quanto nossas mulheres são belas.
Por fim, mais um amargo registro: no início deste mês, Astrud Gilberto, musa da Bossa Nova, ex-companheira de João Gilberto, também nos deixou. Sua delicada voz, cantando em inglês “Garota de Ipanema”, jamais será esquecida. Foi essa versão que tornou esse gênero popular nas terras do “Tio Sam”. Tanto que Frank Sinatra se deixou embalar por esse dócil ritmo que é uma das marcas da nossa genial brasilidade. Bom sábado a todos!

 

 

João Alvarenga é professor
de redação

Compartilhe: