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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Artigos

A Santa Casa e a “pessoalidade” do atendimento

A medicina tem parte de sua força alimentada pela confiança depositada na pessoa que atende, assiste, opera, "pensa" e age na busca da solução de conflitos, muitas vezes, sobre-humanos. Essa confiança é natural e logicamente regada (e regrada) pelo que se chama de pessoalidade.

A Bioética tem, num de seus princípios, a Autonomia, o efeito de uma onda social moderna que é ligada ao senso de liberdade. Ela projeta no ser humano o desejo de fazer o que lhe agrada. Realizar sua vontade. Poder escolher o que comer, beber, fazer, vestir. Assim como escolher quem possa lhe prestar um serviço.

Se se deixar expandir essa liberdade, logicamente, pode se extrapolar e vir a esbarrar na pretendida liberdade do outro. Daí, os limites passarem a regular até "onde" se pode ir (realizando todos os desejos).

A sublimação maior da saúde pública, será um dia possibilitar ao cidadão escolher, dentro da sua Autonomia, onde, com quem e de que forma se tratar. O avanço e progresso da humanidade e da cidadania será poder o governante propiciar isto ao cidadão.

Enquanto isso não vem, a pessoalidade está reservada ao privilegiado nicho de pessoas com planos, seguros de saúde ou que se valem da privacidade do atendimento (i.é., o chamado atendimento particular ou privativo). Mas, o que é futuro, o evoluído, o civilizado será, um dia, poder escolher. Lógico que a pobreza de recursos aplicadas no nosso Sistema Único (SUS), tem sido o grande fator limitante desse progresso e demais avanços.

Onde se quer chegar? Isso tudo para entender que em Barretos temos dois modelos ou paradigmas muito diferentes de atender a esse requisito da autonomia.

Como é o sistema Pio XII?

Um deles é o modelo da Fundação Pio XII, que oferece muita coisa, da melhor qualidade, a uma grande fatia de cidadãos que são humildes, pobres e carentes, em busca de solução para uma situação que é grave, ameaçadora, intimidante que é a doença neoplásica maligna. Criou-se, ali, pelo ideal do Dr. Paulo Prata, um sistema acolhedor, que gerou uma Grande Causa: cuidar de doença grave e de alta letalidade, oferecendo o melhor possível para quem não teria outro porto seguro. E que, no seu crescimento em volume, a Grande Causa tem sido conduzida com sucesso pelos atuais gestores.

Na parte boa desse trabalho, ficou "congelada" uma questão que é evidente: a impessoalidade do tratamento, por conta de que, a pessoa vem ali para ser bem tratada, porém, independente de "por quem". É claro e evidente, que a pessoalidade no sistema Pio XII inexiste. Sempre foi assim? Não. Houve tempos em que os nomes dos "tratadores" ficaram realçados. Mas, hoje, cristalinamente, inexiste o sentido da pessoalidade.

Nos tempos atuais, com o volume de pessoas a serem atendidas, com a enorme concorrência por um espaço acolhedor e solucionador, aquele que vem buscar socorro contra seu câncer, não tem como pretender escolher. Tem é que confiar, até porque nem teve tempo de antes conhecer. Enfrenta uma "fila nacional" que o projeta num processo, em que escolher significa uma irrealidade. Em suma, é tudo de muita coisa boa, porém, extremamente distante da benesse da Autonomia.

Nessa mesma evolução, os cuidadores (médicos), no Pio XII, passaram a ter um sentido de angariar formação técnica e migrarem pelo Brasil afora, em alta rotatividade de composição do Corpo Clínico. Esse paradigma foi gerado e se instalou casualmente. E passou a ser um modelo interessante para a visão do gestor do sistema.

Será também para os profissionais? Sim, na questão de especialização e aperfeiçoamento técnico. Porém, quanto à vinculação ao ser humano atendido, será sempre uma efêmera passagem, por mais sublime que seja. Estarão indo embora, cumprir suas missões e, talvez, enraizarem-se ganhando, longe, o papel da pessoalização.

Fenômeno interessante: uma Grande Causa, mas que ficou retroagida a um modelo impessoal, que claramente, não é o moderno nem o futurista.

E a Santa Casa?

Começa por ser de uma complexidade totalmente diversa de um hospital puramente oncológico. Neste último não existe complexos como são uma maternidade, nem um serviço de emergência geral, nem um serviço de diálise, nem um serviço de cirurgia cardíaca e de procedimentos vasculares invasivos. Não existe um serviço de cirurgia estética com as peculiaridades da benignidade. Não existe a complexidade de um serviço de Ortopedia e traumatologia.

É um complexo que precisa ser administrado com expertise de alto preparo, jamais sendo "tocado na base do bumba meu boi".

Aqui o cidadão vem para se socorrer de algo que o tirou de um conforto ou ritmo normal de vida, para ser tratado e tão logo voltar a mesma normalidade de vida. E não para voltar para uma situação cuja ameaça estará constantemente "governando" sua cabeça. Aqui o cidadão vem para remodelar ou recompor a sua boa qualidade de vida.

Se a complexidade da técnica e da tecnologia é muito diversa, também é o perfil do cidadão a ser atendido. Aqui está um paciente com um astral totalmente voltado para cima. Diferente da outra situação.

 

E a outra grande diferença?

É exatamente a questão da pessoalidade, lídima expressão da Autonomia. Peculiaridade esta, que é apanágio da modernidade, da evolução, do avanço, da sensação de uma segurança garantida pela vontade pessoal.

É a possibilidade de ter tempo e direito de praticar a "livre escolha" que é garantida por dispositivos e normas, literalmente consagrados no Código de Ética Médica e no próprio Manual do usuário do sistema de saúde (Min. da Saúde).

É a possibilidade de continuar existindo a figura do "médico ou cirurgião da minha família". Isto é riqueza do passado, que merece ser preservado e avançar a um futuro civilizado. Só ainda não estabelecido plenamente, por conta da pobreza gerencial da saúde pública de nosso país.

Por essas razões, assistimos hoje pessoas confessarem-se convencidas de que realmente a realidade estrutural é muito diferente. É evidente que a experiência de vida de profissionais com diferentes tempos de traquejo nesse modelo, DEVERIA SER RESPEITADA E APROVEITADA. Até porque, já gozam da sagrada confiança e credibilidade do cidadão, seu grande objetivo de servir.

Exatamente isso define que a PESSOALIDADE existe, sempre existiu e é um mote de qualidade a ser buscado pela assistência em nível de saúde pública.

Torna-se inconcebível impedir que um cidadão chegue no hospital e, tendo poder, ficar tolhido de chamar seu médico de confiança. Do jeito que está, estabeleceu-se uma taxa de consulta particular e se "impõe" o atendimento a uma equipe de profissionais que pode ficar, certamente, desconcertada ou constrangida de terem que atender alguém que não a escolheu. Isso é um atropelamento da autonomia de ambos os lados: do paciente e do profissional, que também existe (e é um outro capítulo).

Nesse quadro fica claro perceber que, Pio XII e Santa Casa, são missões estruturadas de formas diferentes. Equivocado pretender equalizar modelos diferentes relacionados ao tipo de paciente, ao propósito da atenção médica e das filosofias em direções opostas: uma buscando a moderna e futurista pessoalização; e outra, valiosa e valorosa, porém, implantada em função de um caos nacional transitório, que deverá um dia mudar, e que hoje se esmera em fazer ser enxergada como uma Grande Causa. Que, reconhecidamente, é.

Há o calor interpessoal? Sim. Porém, diferente da condição alternativa vigente na Santa Casa, no Hospital São Jorge e em milhares de serviços alhures existentes.

Esta é uma visão que pode explicar divergências de opiniões, posturas e atitudes. É uma visão que merece fazer as pessoas entenderem e se entenderem, num clima de seriedade, serenidade e HUMILDADE que sempre fez, faz e fará bem ao interesse comum.

Sem esquecer que instituições privadas, com um papel público, como são os casos, nunca poderão estar distantes do que pensa a grande população que é, em verdade, o principal alvo e objeto dessa importante missão.

Pretender fazer com que a Santa Casa perca sua tradicional forma de atender, aproximando as pessoas que já se conhecem, se confiam e se asseguram num momento crítico, certamente terá uma resistência natural. Não apenas de um diretor que assim pensa. Mas certamente de todo um corpo de médicos, da população e de quem volta-se para a modernidade. Coincidentemente, inovação calcada numa tradição salutar e amistosa de ser medicado.

Enfim, querem os profissionais médicos (e funcionários também) trabalharem com gabarito, escolhidos pelos seus pacientes, enraizados (como já são) na sua cidade, no seu hospital e honrando seus nomes, no cumprimento de uma missão difícil e sagrada.

Respeitados, educadamente tratados, com a liberdade que a sua autonomia prevê em decisões graves, ora agradáveis e, algumas vezes, tristes por não terem o dom da divindade, como ninguém pode ousadamente assumir.

É como penso, data maxima venia, diante de opinião que possa ser diferente.

 

Dr. Fauze José Daher

Gastro-cirurgião e Diretor Clínico da Santa Casa de Barretos. Mestre em Ciências – Esc. Paulista de Medicina – Univ. Fed. S. Paulo (UNIFESP) Advogado – OAB (SP)

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