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A Ruptura Institucional do Brasil e a Corrupção
O Brasil, definitivamente, está em um processo de ruptura institucional. Demonstra ser possível acabar com a corrupção. Contudo, quão menos instruída e despreparada for a Sociedade, mais dolorosa, conflituosa e até sangrenta, será seu processo. Algumas Nações são mais desenvolvidas do que outras, pois, encontraram muito antes, processos produtivos e de arranjos sociais beneficentes à sua maioria em detrimento de poucos privilegiados. Em seu best-seller, Por que as Nações Fracassam, Daron Acemoglu, explica que sociedades assim, são formadas por Instituições Econômicas Inclusivas, ao passo que sua antítese, as Instituições Econômicas Extrativistas, concentram renda em uma elite privilegiada, que utiliza de sua posição para criar barreiras às mudanças e manter seu status quo. Os eleitores desses “representantes do povo”, são facilmente dominados e levados a acreditar em uma melhora institucional inexistente.
Acredite caro leitor, em algumas décadas, corrupção será tema impensável. Talvez nossos filhos dirijam a nós com perplexidade: “Nossa pai, como sua sociedade aceitava tal comportamento corrupto de agentes públicos e privados?”. Sim, pode soar estranho, assim como a pouco mais de 100 anos, dizer que o regime de escravidão um dia não existiria. Basta voltar 100 anos no tempo (apenas), e vivenciará que a escravidão fazia parte de uma economia de mercado, que simbolizava poderio e influência. Pois bem, o mundo girou, as fábricas profissionalizaram seu sistema de produção, Frederick Taylor (com seus princípios da Administração Científica), passou a estudar os processos de arranjo dos trabalhadores visando uma otimização na produção a fim de aumentar a oferta de produtos e melhorar as condições de trabalho. Henry Ford, revolucionou os transportes e a indústria dos Estados Unidos com a implementação de processos de trabalhos “modernos”, “audaciosos”. Mas, toda essa inquietação de um empresariado cada vez mais preocupado em produzir mais com menos, levou a uma maior oferta de bens e serviços que, imediatamente, necessitou de uma demanda por eles . Daí, o sistema escravocrata entrou em xeque. Demorou, custou, revolucionou, mas no atual século, repudiamos veemente qualquer processo produtivo que use de mão-de-obra escrava. Até mesmo a China, vem adotando medidas econômicas visando retirar seus trabalhadores da penúria e lhes proporcionando um melhor poder de compra. Afinal, se ninguém compra, de nada adianta produzir.
Pode soar estranho tal menção em um artigo cuja finalidade é direcionar o leitor a acreditar no fim da corrupção (sem deboches e risadas). Mas acredite, o exemplo acima é comprobatório que a vida nos exige readequação na busca por soluções dos problemas cotidianos que nos aflige. Quem, na “longínqua” década de implementação do plano Real, imaginaria que uma pessoa possuiria mais de uma linha telefônica? Vou além, que acreditaria que um simples aparelho celular conduziria e organizaria toda a sua rotina de vida? Para não estender nesta questão, nos casos recentes de bloqueio do aplicativo Whatsapp, houve milhares de menções de pessoas alegando perdas financeiras por não conseguirem estar “presente” para poder negociar bens e serviços mesmo que a uma distância entre continentes.
Assim como a escravidão foi parte de um processo de transformação, tendo um auge e depois derrocando, a corrupção tanto do agente privado quanto do público (geralmente unidos), tende a acabar. Não riam. Estou lúcido e certo desta afirmação. A revolução tecnológica nos deixou vulneráveis, próximos mesmo estando continentes de distância
Estamos inseguros. A qualquer momento podemos ser gravados (em uma reunião de trabalho, em um papo descontraído com os amigos, qualquer outro lugar, por qualquer um), flagrados por uma câmera, filmados. Em questão de segundos, estarmos nas redes sociais, sendo alfinetados por pessoas que nunca vimos – e provavelmente nunca veremos. Sendo “julgados” por “juízes comuns”.
Pode parecer um raciocínio complexo, até chato, mas não achem que a ruptura de um processo é prazerosa, simples e rápida. Que o digam nossos representantes políticos. Nunca foi tão difícil para eles usarem de nossos tributos e não ter que prestar contas. Usos indevidos de aeronaves públicas para fins privados, gastos milionários de deputados com telefones, despesas de viagens que ao se apresentar os relatórios, ultrapassam o próprio salário. O que era para ser considerado uma ajuda de custo, tornou-se maior do que o próprio ordenado.
Felizmente, essas passagens podem estar com seus dias contados. A dificuldade em esconder erros, omitir informações, ludibriar os interrogatórios, são consequências de uma revolução silenciosa e sem volta. Pergunte ao Presidente Temer. Flagrado em um áudio com o Executivo do grupo J&F, colocou (e dificilmente retomará o controle) todo o trabalho feito até aqui para a melhora da economia na estaca zero. Dificilmente conseguirá ter governabilidade. Os memes, áudios, opiniões de jornalistas, economistas, juristas, repercutiram a velocidade de progressão aritmética. A velocidade com a qual os aplicativos utilizados em smartphones propagam uma notícia, é ruptiva, desestabilizadora.
As provas produzidas pela força tarefa da Lava-Jato têm mostrado a dificuldade de se conseguir camuflar, mentir. Pode-se rastrear tudo, sem exceção. A alegação de que “eu não conheço”, “não vi”, “nunca tive relação com essa pessoa”, entre outros argumentos jurídicos de defesa por parte dos acusados, perderam sua eficácia. O Brasil pode se vangloriar. É um dos países (mesmo em comparação com os desenvolvidos) com um dos mais sólidos sistemas financeiro. Com processos e regras rígidos, criando solidez e tranquilidade a poupadores e investidores e, dificultando ao extremo processos de sonegação, evasão de divisas, entre outros crimes praticados por nossos “representantes”.
A sociedade tem aceitado cada vez menos atos de corrupção. Tem se valido dos adventos proporcionados pela tecnologia para disseminar o repúdio a corruptores. Utilizam dos meios tecnológicos para se organizarem em uma “sociedade” blindada a atos ilegais.
Porém, de nada adianta aderirmos a um mundo mais conectado, moderno, se não temos a instrução necessária para poder conduzi-lo. Em uma pesquisa recente realizada pela Folha sobre o tema da reforma da Previdência, 71% são simplesmente contra, 52% acham que o brasileiro já se aposenta mais tarde do que deveria! (Meu Deus, basta uma rápida pesquisada no google e encontramos o Brasil como um dos países que mais cedo sua população se aposenta). Pior, 66% dos que afirmaram “ter tomado conhecimento da reforma”, apenas 27% ousaram responder que se sentem “bem informados”. Leituras de pesquisas assim traduzem que mesmo munidos de uma arma poderosa e com capacidade de ruptura permanente no “modus operandi” do Mundo, ainda precisamos aprender a entender o funcionamento de nossas entidades. Não podemos ser ignorantes ao pensar que um “fora Dilma”, fora Temer”, “diretas já”, resolverá nossos problemas. Precisamos entender melhor do funcionamento da República Federativa do Brasil, do funcionamento do Executivo, Legislativo e Judiciário. Estarmos cientes de que o dinheiro desviado pela corrupção faz sim uma tremenda falta aos cofres públicos, mas ao mesmo tempo, compreender que nossa constituição foi elaborada em um momento diferente do atual. Hoje não cabe mais um Estado aparador, que resolverá todos nossos problemas . Precisamos ser mais produtivos, e, para isso, investir maciçamente em educação . Vejam a Coréia do Sul, que em meados da década de 50, ficava atrás de nós em dezenas de quesitos econômicos e sociais. Hoje, nos ensina (e teimamos em não estudar o professor) que a educação é a chave para encararmos os processos de rupturas com menos trauma e melhores resultados para a nação.
Por fim, sou muito crítico da sociedade brasileira. Muitos brasileiros, quando perguntados, não fazem a mínima idéia de quem seja o presidente da Câmara. Um dos principais agentes públicos na representação do pleito da Sociedade é desconhecido pela sua maioria (para não dizer em quase sua totalidade). Somados a exemplos como as perguntas sobre a previdência, escancaram um Brasil ainda despreparado, com uma população imatura, que aprendeu a incomodar o agente público (e as pequenas classes de empresários ligadas a eles). Exigir a saída de Michel Temer para nos apoiarmos em “soluções salvadoras “ como Lula, Ciro Gomes, Marina, Aécio e outros, é permanecer em solo infértil, arenoso. Saibamos aproveitar da ruptura causada pelo avanço inegável da tecnologia. Que trouxe novamente o poder de decisão do eleitor. Estamos em um momento oportuno para limparmos os “ratos” salvadores e nos aproximarmos do Estado para com ele (e não dependente dele), buscar a tão sonhada Ordem e Progresso.
Sávio Rodrigues de Lara Borba, formado em Administração e Pós Graduado em Controladoria e Auditoria pela UNI-FACEF. Atualmente está cursando um MBA em Gestão Tributária na FUNDACE.