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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Artigos

A porta de 2024

Em passagem de ano todos repetimos, num vai e vem, os votos de feliz ano novo, automaticamente, sem que a gente se dê conta que do lado de fora de nossos corações e mentes, tudo mais na Terra continua a girar, sem saber do calendário que marca o ano, essa volta completa que nosso planeta dá em torno de sua estrela. O calendário cria em nós a ideia de que um ano velho se foi, levando os trastes, e virá agora um novo e recém-nascido período cheio de esperanças. É a ideia do fim e do recomeço. Já passei por isso 83 vezes e posso garantir-vos, lembrando Lavoisier, que nada acaba nem começa novo. É tudo continuação. O que vamos colher num novo ano é o que plantamos nos anos anteriores.
Em relação ao que sonhamos e queremos, só faremos acontecer se não ficarmos à espera de que outros façam. Há quem espere por Deus para melhorar de vida, há quem espere pela sorte e há quem espere de governos. Mas o melhor investimento no futuro ano é em nós mesmos, pois em geral ganhamos sempre se apostarmos em nós mesmos. Além disso, para quem depende de milagres divinos, me avisou no dia 31 meu amigo monge beneditino: “Deus, muitas vezes, nos usa para realizar milagres. Quem sabe não poderemos ser instrumento desses milagres?”
A mais realista charge desta passagem de ano mostra um grupo de pessoas assustadas se esgueirando por trás de uma parede, enquanto uma delas cutuca, com uma longa vara, empurrando para abrir a porta onde está escrito: 2024. Pois nessas 83 passagens de ano que vivi, nenhuma delas me inquietou com tantas incertezas como esta. O ano que chega parece cheio de perigos para as liberdades, a Constituição, a democracia. O devido processo legal parou de funcionar, os representantes eleitos ou assustados, ou perplexos, ou inermes, ou, quem sabe, abduzidos… e o Executivo parece que apresenta a cada dia um novo improviso. Um 2024 indecifrável; uma porta perigosa atrás da qual pouco se vê. Nem quero pensar no verso de Dante: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Porque, afinal, brasileiro é profissão esperança.
Quando alguém perdido no deserto clama por água! água! água!, a gente sabe do que está carente. Pois nunca ouvi e li tantas vezes repetida na mídia a palavra democracia, revelando a carência. Quando direitos e garantias fundamentais são desprezados — assim como o devido processo legal — e há tanto silêncio a respeito, é porque a palavra democracia está sendo usada não para exigir democracia, mas para fingir que ela está presente. Ela está gravemente doente, mas se quer mostrar que está saudável e forte, com a força das ditaduras. E se silencia, enquanto o calendário avança com restrições à liberdade de expressão, ao direito de ampla defesa. Democracia não sobrevive com exceções abertas na Constituição. O que nos espera neste ano, a continuar a marcha à ré na democracia? O que haverá por trás da porta de 2024?

Alexandre Garcia
jornalista

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