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sexta-feira, 16 de abril de 2021

Artigos

A novela nossa de cada dia

Caro leitor,
As telenovelas entram em nossas casas diariamente e mexem com o nosso imaginário, através de seu extenso repertório, conflitos e recursos narrativos. Em março do ano passado, com o início da pandemia da COVID-19, a Globo, foi obrigada a interromper abruptamente as gravações de suas telenovelas ‘Salve-se quem puder’, de Daniel Ortiz e ‘Amor de Mãe’, de Manoela Dias, com retorno das gravações em agosto, seguindo as recomendações sanitárias, inclusive com os artistas interpretando suas personagens utilizando a máscara, isto é, uma representação da pandemia em plena pandemia. Neste mês de março esses melodramas retornam à telinha para os capítulos finais, sendo que a primeira será exibida integralmente e a segunda, em um compacto, para reavivar a memória do telespectador. Durante todo esse período de surto pandêmico, várias novelas de sucesso de outrora, foram e continuarão a ser reprisadas, em edições especiais, até que se normalize a situação sanitária, que assola o Brasil e o mundo.
A primeira telenovela foi ‘Sua Vida me Pertence’, de autoria e direção de Walter Forster, com 15 capítulos, exibida entre 21/12/51 e 8/02/52, produzida pela Tupi, a primeira emissora de televisão do País, inaugurada em 1950. Naquela época as novelas eram encenadas ao vivo, não havia vídeo-tape, e eram transmitidas algumas vezes por semana. Nesses 70 anos de história da televisão brasileira, o mundo dos folhetins, foi afetado por imprevistos, entre eles, a morte de protagonista, censura federal, encerramento de atividades de emissora de TV, obrigando à mudança de rumo da trama e movimentação intensa nos bastidores. O ano de 1980 iniciava com a notícia da falência da Tupi e o consequente fechamento da emissora em 18 de julho daquele ano. Na novela ‘Drácula, Uma História de Amor’, escrita por Rubens Ewald Filho, dirigida por Atilio Riccó, foram ao ar apenas quatro capítulos da trama; outra novela da mesma emissora a sair do ar, inesperadamente, foi ‘Como Salvar Meu Casamento’, escrita por Edy Lima/Ney Marcondes/Carlos Lombardi, dirigida por Atílio Riccó, exibida de 26/06/79 a 22/02/80. A narrativa teria 160 capítulos, mas foram exibidos apenas 140, sem desfecho, dessa forma, nunca teve seu final mostrado na telinha.
A novela ‘Sol de Verão’, escrita por Manoel Carlos, para a Globo, exibida entre 11/10/82 a 19/03/83, com previsão de 155 capítulos, foi reduzido para 137, devido à morte do ator Jardel Filho, em 20/02/83, o qual interpretava o protagonista Heitor, abalando todo o elenco e equipe técnica. Após várias alternativas, entre elas, cogitava-se tirar a novela do ar e sem o final da trama; por outro lado, alguns atores chegaram a ser cotados para o papel de Heitor; no entanto, respeitando as pesquisas de opinião, que mostravam que os telespectadores queriam que a história tivesse um fim, então, optaram por uma viagem de Heitor para a Holanda e a antecipação do final da novela, o que obrigou a Globo a reexibir, às pressas, ‘O Casarão’, novela de Lauro César Muniz, produzida em 1976, de forma compacta, em 18 capítulos, até a estreia de ‘Louco Amor’.
Em 1975, a Globo, se viu às voltas com a Censura Federal, envolvendo a novela ‘Roque Santeiro’, de Dias Gomes, baseada na peça teatral de sua autoria, ‘O Berço do Herói’, adaptação com ligeiras modificações, para enganar os militares, visto que a peça fora proibida em 1963. A trama seria exibida a partir do dia 27/08/75, possuía 30 capítulos gravados e chamadas que anunciavam sua estreia. Porém, pegos de surpresa no dia da estreia, com a proibição de se levar ao ar o folhetim, a emissora teve apenas três meses para preparar uma outra novela. Para preencher o vazio na programação, foi exibida uma reprise compacta de ‘Selva de Pedra’, de Janete Clair e, posteriormente, substituída por Pecado Capital, da mesma autora. Após 10 anos, com o término da ditadura militar, a trama foi liberada e a emissora do Jardim Botânico, finalmente produziu ‘Roque Santeiro’, escrita dessa vez, por Dias Gomes/Aguinaldo Silva, levada ao ar entre 24/06/85 e 22/02/86, com 209 capítulos, imortalizando a viúva Porcina (Regina Duarte) e Sinhozinho Malta (Lima Duarte).
Enfim, a novela nossa de cada dia é imperdível!
(Fonte: Wilkipédia)

José Antonio Merenda
Historiador e presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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