Artigos
A nossa novela de cada dia – Parte 2
Caro leitor,
As novelas exercem um fascínio e inúmeras influências, umas boas, outras más, sobre o telespectador, composto de pessoas de todas as classes sociais e recantos do país. Elas ditam moda; estilo de vida; padrões de comportamentos de homens e mulheres, em certos casos com ousadias, transgressões e frenesi; violência urbana e chegam a ser realistas, com críticas da realidade social e política; entre outros, que nos levam a refletir.
No entanto, hoje vamos focar no assunto mais recorrente dos folhetins: o sexo nas novelas. A evolução e as mudanças na sociedade brasileira, a influência, principalmente, sobre os jovens que estão em fase de definição de personalidade, referências compartilhadas por todos.
Do primeiro beijo na televisão brasileira entre um homem e uma mulher, ocorrido em 1952 e o beijo ‘gay’, em 2014, muita água passou por debaixo da ponte. O primeiro foi na novela ‘Sua Vida me Pertence’, entre a atriz Vida Alves e o galã Walter Forster, na TV Tupi de S. Paulo, com pouquíssimos ‘teventes’, telespectadores daquela época, visto que poucos lares possuíam um aparelho de televisão. Para se ter uma ideia, somente no início da década de 60, Barretos passou a receber as imagens de TV. Naquela época a família era patriarcal e conservadora, os discursos morais enfatizavam o papel materno das mulheres, e então, os próprios atores tinham receio da não aceitação daquela cena, cujo beijo foi considerado ardente, apesar dos atores terem beijado de boca fechada; o segundo, foi entre dois personagens ‘gays’, na novela ‘Amor à Vida’, na Globo, com cena protagonizada pelos atores Mateus Solano e Thiago Fragoso, e transmitida para todo o Brasil, encontrando uma sociedade diferente daquela da década de 1950.
Até o início dos anos 70, segundo Sonia Novinsky, “a dimensão erótica das relações entre homens e mulheres esgota-se no beijo, que é o principal signo iconográfico do amor”. As representações da mulher na TV, inicialmente tímida, correspondia ao casamento estável, onde o homem era definido como encarregado do sustento da família, e a mulher, dos serviços domésticos e nos cuidados com os filhos. Em 1971, por exemplo, a realização do ato sexual antes do casamento era sugerida pela presença do homem, se vestindo no quarto da namorada na manhã seguinte, e, por consequência, vinha a gravidez e o matrimônio obrigatório para reparação do mal. No entanto, no decorrer dos anos, a liberalização tornou-se crescente nas novelas, já opunham ao padrão feminino comportado e dependente, com a idealização da mulher liberada, forte e independente, cenas de aposentos íntimos, presenças constantes de corpos masculinos e femininos seminus, casais na cama, gestos que simbolizavam o orgasmo passaram a ser admitidos, além do sexo pré-nupcial, separação para casamentos infelizes, legitimação de segundas núpcias, adultérios, a virgindade passa a não ser um bem tão precioso, o uso de pílulas anticoncepcionais na prevenção da gravidez, o uso de ‘camisinha’ para prevenir a AIDS. Com isso as novelas passaram a atualizar, sucessivamente, as representações da mulher: a sua vida profissional e o mercado de trabalho; as relações amorosas e a insatisfação no amor; a família e a fragmentação dela: ‘a família margarina começava a derreter’.
Em 1975, na Globo, a novela ‘Gabriela’, adaptada do romance de Jorge Amado, ‘Gabriela, Cravo e Canela’, onde a personagem título interpretada por Sônia Braga, aparece nua no horário das dez da noite e no seriado ‘Malu Mulher’ (1979), de inspiração feminista, é a história de uma mulher moderna, independente, separada do marido, interpretada por Regina Duarte, onde acontece a representação do orgasmo pela primeira vez, por meio da mão fechada que se abre como em um espasmo; a TV Manchete segue a mesma linha, nas novelas Dona Beja (1986), com Maitê Proença, baseada em dados históricos e ‘Pantanal’ (1990), protagonizada por Cristiana Oliveira. A partir dos anos 1990, outros temas são apresentados, como: os clubes de mulheres, especializados em strip-tease masculino; barriga de aluguel, casais gays tanto masculinos, quanto femininos etc.
Apesar de tudo, as novelas continuam a fazer sucesso nos lares brasileiros!
* José Antonio Merenda: Historiador e presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura