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segunda-feira, 04 de março de 2024

Artigos

A morte de vovó União

Caros leitores,
É com profundo pesar que comunico o falecimento de vovó União, cujo nome de batismo era União dos Empregados no Comércio, aos 108 anos e alguns meses, cuja vida foi intensa em prol da sociedade barretense. Em sua casa, um dos principais espaços de lazer de seus filhos no século passado, recebia-os com carinho, os quais viveram momentos inesquecíveis. Porém, a anciã agonizava há anos, respirava por aparelhos, acumulava dívidas em seu dia a dia, devido à má administração de seus recursos, bem como, outros fatores globais, que a levaram à bancarrota, numa bola de neve.
Haja coração para suportar essa perda irreparável! A sua casa era ponto de encontro de suas centenas de filhos ávidos do convívio social e de lazer. No entanto, com o passar do tempo, seus rebentos envelheceram e seus netos, bisnetos e trinetos se mostraram apáticos em frequentarem a casa da vovó União. Os novos tempos chegaram, com isso a casa esvaziava e sua família se desfazia. Cada um seguia sua vida, se adaptava às transformações de hábitos e costumes, avanços tecnológicos, o aumento de ofertas de lazer, como aberturas de academias e multiplicações de condomínios fechados, com quadras esportivas, salão de festas, academias de ginásticas, piscinas, tudo ao alcance das mãos, sem precisar se deslocar. Outro ponto importante observado está no fato de que, a maioria de seus filhos são remidos, isto é, não contribuíam com valores para ajudar nas despesas da casa, somando-se a isso o alto custo de manutenção, que geraram déficit mensal.
Vovó União nasceu a 16 de agosto de 1914, em pleno início da primeira Guerra Mundial, iniciada duas semanas antes, no dia 3. Barretos, na época, despontava para o Brasil e o mundo. A cidade vivia significativo progresso, com a chegada dos trilhos da estrada de ferro (1909), energia elétrica (1911) e a Companhia Frigorífica e Pastoril (1913), a vinda de imigrantes de várias nacionalidades, bem como, pessoas de outras cidades, para o trabalho na indústria, no comércio, serviços gerais e, ainda, como profissionais liberais, dando um impulso ao comércio. Era primordial que se criasse um lar, que oferecesse lazer, esportes e cultura.
Em sua casa, com um grande salão, realizou-se grandes bailes, carnavais, boates, casamentos de seus filhos e descendentes, tanto, quando morava na rua 20, entre as avenidas 21 e 23, como na av. 43 com a rua 22. Foram décadas de glória até sucumbir ao tempo. Apesar dos esforços e sem perspectivas de solução, para não terem seus bens leiloados, preferiram vendê-la para uma rede varejista para pagamento de dívidas. Agora sua residência foi demolida. O local dará lugar a um supermercado, onde, antes seus filhos dançavam e curtiam horas de lazer para satisfazer a alma, doravante estará repleto de gôndolas, prateleiras, açougue e padaria, para saciar a fome.
O seu velório iniciou-se no dia 9 de março de 2023, a partir das 19 horas, porém, o sepultamento ainda não foi marcado, na espera que seus familiares cheguem a um acordo, quanto ao dia e horário. A cerimônia fúnebre estava sob o comandando de Gilberto Rezende, o inventariante da falecida, no grande salão da Villa Poema, situada à avenida 01, esquina da rua 18. Na oportunidade diversos descendentes desamparados discursaram e lamentaram o ocorrido.
No entanto, o seu inventário gerou várias polêmicas, por conta da partilha de bens, uns preferiram a distribuição do dinheiro entre os herdeiros, outros escolheram doar para instituições filantrópicas, e, ainda, outros, optaram por serem adotados por uma nova família, cujo acolhimento seria salutar para ambas as partes. Porém, não houve um acordo, uma nova audiência será marcada.
Agora, o que resta é a lembrança da amorosa vovó União, as coisas boas em seus anos áureos, os namoros; os salões lotados; as boates; os grandes bailes; as orquestras; bandas; conjuntos; músicos; cantores e cantoras; as peças de teatro e seu corpo cênico; as exposições de arte; as semanas culturais; as partidas de futebol; os mergulhos em sua piscina; a sauna; e, tantos outros momentos memoráveis.
‘Requiescat in pace’, vovó União!

 

 

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador e membro
da ABC – Academia Barretense de
Cultura – Cadeira nº 29

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