Ir para o conteúdo

domingo, 21 de julho de 2024

Artigos

A Fé é permanecer à procura da luz

Todo o terceiro capítulo do Evangelho de João apresenta o encontro entre Jesus e Nicodemos, um reconhecido líder judaico, “mestre em Israel” (Jo 3,9) e membro do sinédrio, espécie de tribunal de justiça que, mais tarde, condenará Jesus à morte. Nicodemos vai aparecer em outras duas situações: quando defendeu Jesus de acusações e da tentativa de prisão (“será que a nossa Lei julga alguém antes de ouvir e saber o que ele fez?” – Jo 9,51) e, depois da morte de Jesus, com José de Arimateia, quando foi tirar o corpo de Jesus da cruz e “levou mais de trinta quilos de uma mistura de mirra e resina perfumada. Então pegaram o corpo de Jesus e o enrolaram com panos de linho junto com os perfumes, do jeito que os judeus costumam sepultar” (Jo 19,39-40).

Depois do encontro com Jesus, a vida de Nicodemos foi sendo transformada: “quem pratica o mal tem ódio da luz” (v. 20). É verdade que ele não deixou o sinédrio nem renunciou ao seu poder, mas o diálogo, as perguntas, os silêncios “da noite” configuraram uma vida que, de alguma maneira, já não se distanciou de Jesus.

No fundo, Nicodemos é uma fotografia da nossa fé, que oscila entre a escuridão e a luz. Habita em nós um “Nicodemos” que aparece e silencia, que defende e se esconde, que chega quando Jesus já está morto. Parece que Nicodemos tem boa vontade, mas tem dificuldade em entender como fazer. Confia nas próprias forças e percebe que elas não bastam. Jesus lhe tinha “ensinado tudo”, mas era preciso uma resposta amorosa, aquele “nascer de novo” (Jo 3,3) que muda tudo.

O Evangelho de João distingue aqueles que não creem (v. 20), que trabalham para as trevas, odeiam a luz e realizam obras más, daqueles que creem e se aproximam da luz por meio das obras da verdade (v. 21). Ser um “buscador da luz” é fixar os olhos em Jesus e no seu grande mistério de amor – paixão, morte e ressurreição.

De fato, assim se inicia o Evangelho: “ninguém subiu ao céu a não ser aquele que desceu do céu: o Filho do Homem” (Jo 3,13). Como a serpente levantada por Moisés no deserto, a cruz é o novo sinal da salvação (v. 14).

Na continuidade do diálogo, Jesus ajudou Nicodemos a perceber a presença de Deus na história: “Deus amou de tal forma o mundo…” (v. 16). É interessante o uso do verbo no passado – amou –, significando um amor fiel, de sempre e para sempre. Um amor que atravessa o mundo! É como dizer: não há dúvidas sobre o amor de Deus, é um amor seguro. Nossa biografia está marcada com o sinal do amor! Há sempre um antes e um depois da experiência do amor, e Jesus convidava Nicodemos a mergulhar nesse grande mistério.

(vidapastoral.com.br • nº 56)

Compartilhe: