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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Artigos

A escola de ontem, o bullying de hoje

Pode parecer exagero, mas todos que passam pela vida escolar, infelizmente, sofrem algum tipo de bullying. Não que tal prática deva ser aceita com naturalidade, já que a escola deve ser ambiente acolhedor a fim de garantir um aprendizado seguro. Ninguém escapa das brincadeiras maldosas ou apelidos. No entanto, mais importante que o constrangimento é a maneira como enfrentamos situações vexatórias.
Afinal, muitos adultos de hoje, quando estudantes, também foram vítimas de brincadeiras maldosas; mas, suportaram-nas sem traumas. Diante disso, muitos se questionam: por que as crianças de hoje não conseguem superar situações adversas de forma equilibrada? Quiçá, a resposta esteja na família.
Claro que, nos idos de 1960 e 1970 tal prática nefasta ainda não tinha sido nomeada pelos especialistas, pois era um fenômeno relativamente novo na vida escolar brasileira. Além disso, acontecia com menor intensidade. Tanto que o emprego de tal termo, oriundo da língua inglesa, é relativamente novo, ainda que provocações sempre estivessem presentes nas escolas.
Contudo, naquela época, a escola era muito diferente dos colégios atuais, pois o regime militar ditava as normais sociais, inclusive do ambiente escolar. Às vezes, algum aluno testava os limites: fazia chacotas dos colegas ou provocava os mais fracos. Sobravam socos e pontapés, mas os inspetores apartavam as rusgas rapidamente.
Assim, tudo acabava ali mesmo, sem ressentimentos entre as partes envolvidas. Ou seja, agredidos e agressores voltavam para suas casas, onde ouviam sermões familiares. Claro que, em tais circunstâncias, alguém levava a pior; mas, resignado, suportava a situação sem tramar vinganças. Tanto que não se tem notícias — daquela época — de que alguma escola tivesse sido invadida por algum estudante disposto a revidar a humilhação sofrida.
De lá para cá, muita coisa mudou, no ambiente escolar, com a introdução da tecnologia nas salas, principalmente do uso de celulares. Porém, os xingamentos e agressões ainda persistem até os dias de hoje. Com um agravante: as redes sociais, agora, dão maior visibilidade a tais atos, quando não instigam, via compartilhamento, a prática de atitudes violentas.
Haja vista a recente tragédia que chocou o País: um garoto de 13 anos invadiu uma escola pública e esfaqueou uma professora. Tudo por causa do bullying. Infelizmente, outras escolas foram alvo de ataques semelhantes. Isso espanta, pois não era comum por aqui. Nos Estados Unidos, é rotineiro. Tanto que, no mesmo dia, ocorreram ataques lá e cá.
No entanto, quando algo ruim acontece, a sociedade se pergunta: Por que a escola falhou? Na verdade, todos falharam, a começar pela família. Afinal, o aluno postou, na internet, que faria tal ação. Inclusive, houve troca de mensagens com colegas, que o incentivaram a agir. O triste é que, movido pelo ressentimento, tirou a vida de uma educadora que ensinava com amor. Tanto que, mesmo aposentada, continuou lecionando.
Todavia, por que tanto rancor para com quem apenas cumpria uma nobre missão? Tal resposta só virá após uma ampla análise de especialistas, tanto em segurança quanto em redes sociais. O debate envolve a participação de autoridades, educadores, psicopedagogos e familiares. Foco: conscientizar os estudantes sobre os perigos da internet. Estudos britânicos apontam que crianças e adolescentes passam mais tempo do que deveriam nos celulares. Isso compromete não só o aprendizado, mas também, a socialização dos alunos, além da exposição a todos os riscos virtuais.
Por fim, é mister repensarmos os valores deste século, a fim de que a escola se torne um ponto de convergência para uma ampla discussão sobre esse tema. Oxalá, a sociedade reencontre o caminho do diálogo. Porém, mais presencial e menos virtual.

 

João Alvarenga é professor
de redação

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