sexta-feira, 04 de dezembro de 2020

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‘A Encantada’ – A exótica casa de um gênio brasileiro

Caro leitor,
No carnaval de 2018, eu, Cacilda e meu filho João Vitor, em uma visita a Petrópolis, RJ, dentre outros pontos turísticos, tivemos o privilégio de conhecer ‘in loco’, ‘A Encantada’, localizada na Rua do Encanto, nº 22, casa de Santos Dumont, gênio brasileiro, inventor do avião e, para quem não sabe, do ‘relógio de pulso’ também, para sua maior comodidade, pois precisava manter as mãos livres para pilotar, deixando de lado o velho relógio de bolso.
Alberto Santos Dumont, nasceu na Faz. Cabangú, em Palmira, MG, na zona da Mata, hoje denominada Santos Dumont, a 20 de julho de 1873. Era leitor e admirador, desde criança, do romancista francês Júlio Verne (1828 – 1905), que em suas obras ficcionistas descrevia, com muita propriedade, transatlânticos, balões, foguetes e outros avanços científicos e tecnológicos, que para nós é uma realidade, e inimagináveis na época. Anos depois, já adulto, sonhava realizar o que Verne imaginou. Ele, após várias experiências, brilhou em 1906, quando, com seu 14 BIS, sobrevoou o Campo de Bagatelle, em París, realizando um sonho e um desafio do homem: voar.
Apesar de toda a sua genialidade e fama, segundo o cronista Henrique Pongetti, que conheceu o inventor, disse: “falava pouco e timidamente” e o poeta Salomão Jorge, assim o descreve: “Encontrei-o várias vezes nas ruas de Petrópolis, caminhando só, sob o chapéu de abas largas, a gravata borboleta emergindo do enorme colarinho, acariciando as crianças, os olhos perdidos em horizontes longínguos… ”
Voltando à ‘A Encantada’, por fora ela tem aspecto de chalé, do tipo alpino francês, com telhado grená, com placas vindas de Flandres, as paredes pintadas de branco, com janelas verdes, ornamentadas por ‘jardineiras’, em local bem arborizado. A casa construída em 1918, em terreno inclinado, incrustada no morro do Encanto, a uma altura de trinta metros da rua, foi desenhada e planejada por Santos Dumont, do jeito que ele queria, com ajuda do engenheiro Eduardo Pederneiras, e revela muito da personalidade excêntrica e a inventividade de seu proprietário, e que, serviu-lhe de refúgio por cerca de 12 anos.
‘A Encantada’ possui algumas peculiaridades: não há paredes internas, as divisões são feitas através de palanques, escadarias e elevações do solo; o banheiro todo de louça importada, com um chuveiro com água quente, com aquecimento a álcool e misturador de água, o único do Brasil àquela época; as escadas incríveis, onde a externa se pode, somente, começar a subir com a perna direita e a interna, que se pode, somente, começar a subir com a perna esquerda, ambas íngremes, cujos degraus são recortados em forma de raquete, para que as pessoas não batessem a perna no degrau de cima; a casa possui vários pavimentos: no primeiro, ficava uma oficina de pequenos reparos e laboratório fotográfico; no segundo, uma sala de estar, biblioteca, escritório e lugar de refeições; no mezanino, o dormitório e banheiro; em cima da casa, Santos Dumont construiu um observatório, onde passava horas observando os astros, através de um mirante de difícil acesso, onde há uma Bandeira Brasileira hasteada; não possui cozinha, pois todas as refeições vinham do restaurante do Palace Hotel, que ficava em frente, onde, hoje, funciona a Universidade Católica de Petrópolis.
Faleceu no Guarujá a 23 de julho de 1932, três dias após completar 59 anos. Ele que havia sofrido com os bombardeios aéreos durante a I Guerra Mundial (1914 – 1918), foi a gota d’água, o estouro da Revolução de 1932, por ver sua invenção sobrevoar e bombardear alvos brasileiros, ou seja, irmão matando irmão. Entrou em depressão e suicidou-se.
Em 1936, a casa, móveis e objetos de Santos Dumont foram doados pela família à Prefeitura. Em 1952, foi tombada pelo IPHAN e, em 1956 transformada em ‘Museu Casa de Santos Dumont’.
(Fontes: Panfletos distribuídos aos visitantes, placa na entrada de ‘A Encantada’ e o livro ‘As lutas, a glórias e o martírio de Santos Dumont’, de Fernando Jorge, da Geração Editorial, 2007.)

José Antonio Merenda
Professor, historiador e
presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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