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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Artigos

A economia franciscana

A Igreja Católica manifesta-se sobre as políticas econômicas há séculos. Uns grupos de extrema direita, com insensatez, separou trechos da doutrina social dando a entender que a Igreja só é contra o comunismo… Mas não só! É contra toda forma de exploração humana.
A começar com a nossa economia nada inclusiva, que tira o pão de milhões de brasileiro e privilegia uns poucos. Veja os juros do Banco Central, 13,75%, no primeiro mundo, os juros são negativos, ou seja, pagam menos que a inflação, por isso dizemos que são juros negativos, quem tem dinheiro aplicado aí, está perdendo valor, já que os produtos sobem mais que os juros.
No Brasil, criou-se um hábito na poupança de pagar 6% reais ao ano, como a inflação do ano passado foi de 5,79%, então, os juros deveriam ser 12,14% e não 13,75%. Percebe? Em outras palavras, o Brasil pagou 7,52% em 2022, um verdadeiro “jurão”. Agora em fevereiro, a inflação anualizada foi 5,6%, ou seja, o BC pagou 7,71%. E há quem diga que o BC está correto…
Se consultarmos a Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, veremos que o mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se de um pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja. A suposta redistribuição não resolve a desigualdade, sendo esta, fonte de novas formas de violência que ameaçam o tecido social (§168).
Diz o papa: a crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento de uma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira especulativa e da riqueza virtual. Mas não houve uma reação que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo. Antes, pelo contrário, parece que as reais estratégias, posteriormente desenvolvidas no mundo, têm-se orientado para maior individualismo, menor integração, maior liberdade para os que são verdadeiramente poderosos e sempre encontram maneira de escapar ilesos (§170).
Por um lado, é indispensável uma política econômica ativa, visando promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial, para ser possível aumentar os postos de trabalho em vez de os reduzir. A especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos. Por outro lado, sem formas internas de solidariedade e de confiança mútua, o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica. O fim da história não foi como previsto, tendo as receitas dogmáticas da teoria econômica imperante demonstrado que elas mesmas não são infalíveis.
A fragilidade dos sistemas mundiais perante a pandemia evidenciou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado e que, além de reabilitar uma política saudável que não esteja sujeita aos ditames das finanças, devemos voltar a pôr a dignidade humana no centro e sobre este pilar devem ser construídas as estruturas sociais alternativas de que precisamos (§168). Todo empresário e político deveria estudar essa Encíclica.

 

 

 

 

Mario Eugenio Saturno
(cientecfan.blogspot.com)
é Tecnologista Sênior do
Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (INPE) e congregado mariano.

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