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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Artigos

A carta de Pero Vaz de Caminha

Caros leitores,
O dia 22 de abril está marcado pela descoberta do Brasil. A historiografia europeia nos contempla com a esquadra de Pedro Álvares Cabral aproximando do monte Pascoal a 21 de abril e chegando às costas brasileiras no dia seguinte, 22. No entanto, precisamos compreender o processo histórico e contribuir para a visão crítica de nossa origem.
A carta de Pero Vaz de Caminha, o primeiro documento da história de nosso Brasil é muito importante pelo relato do que ele viu ao ancorar em nossa Terra. Assim, Caminha, escrivão da esquadra de Cabral, inicia sua carta de sete folhas, cujo original se encontra no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal, reproduzida na edição da Coleção ‘Grandes Personagens de Nossa História’, da Abril Cultural, volume 1, editada em 1969: “Senhor. Posto que o capitão desta vossa frota e assim os outros capitães escreve a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra que ora nesta navegação se achou, não deixarei de dar disso conta a Vossa Alteza, assim como puder, ainda que para contar e falar, o saiba pior que todos fazer (…) E, portanto, senhor do que hei de falar começo e digo: que a partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira 9 de março, e sábado do dito mês, entre as 8 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária; e ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três ou quatro léguas; e domingo 22 do dito mês, às 10 horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, (…) e assim seguimos nosso caminho por este mar de longo até terça-feira, das oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, que topamos de terra alguns sinais. . .”.
A primeira denominação dada por Cabral, a esta Terra, foi Vera Cruz. Caminha conta ao El-Rei Dom Manoel, o venturoso, as novidades, quanto às novas terras descobertas. Ele prossegue descrevendo as belezas da terra, de suas aves estranhas e da sua gente, os indígenas, que ele considera de bons rostos e muito inocentes em sua nudez, que mostram sem nenhum pudor.
Na carta, escreve, ainda, como os portugueses tentaram fazer amizade com os indígenas, ao trocarem presentes com eles, e da primeira missa celebrada a 2 de maio, pelo Frei Henrique Soares, de Coimbra. Na sequência, ele diz que o clima da nova Terra era muito bom e temperado, como o do Entre-Douro e Minho, em Portugal, e que as águas eram sem fim, e mais, tudo que plantasse cresceria. No entanto, ele aconselha aos portugueses a salvarem aquela gente nativa, o que hoje chamamos de ‘povos originários’, que ele considerava muito selvagem.
Ele termina “Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro da vossa ilha da Vera Cruz, hoje sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500”.
Quanto aos nativos, quando da chegada de Cabral, já possuíam uma longa história, Estudos estimam que, em 1500, habitavam em nosso território cerca de 2,5 milhões de indígenas. A sua cultura é milenar e de uma sabedoria ecológica incomum. Falavam e falam, ainda hoje, diversos idiomas. No entanto, à época do descobrimento, o tupi, por ser falado pelas tribos litorâneas, as primeiras que entraram em contato com os portugueses, foi elevada à condição de língua geral falada por eles.
No livro didático História para o Ensino Médio, de Renato Mocellin, página 216, editado em 2006, eis o que escreveu o professor e sociólogo Darcy Ribeiro a respeito: “Índio é todo indivíduo reconhecido como membro de uma comunidade pré-colombiana que se identifica como etnicamente diversa da nacional e considerada indígena pela população brasileira com quem está em contato”.
Em nossos dias podemos disfrutar dos vários conhecimentos milenares do povo indígena, tanto na agricultura, com o cultivo de variedades, como mandioca, batatas, milho, feijão, amendoim, bananas, e outras, que estão em nosso dia a dia; nas ervas medicinais; a contribuição na língua portuguesa falada no Brasil, com verbetes importantes; denominação de centenas de cidades com palavras do idioma indígena; entre outras contribuições.
De 1500 para cá, o Brasil se tornou uma nação, Estados e cidades foram criados, O progresso está visível. Já passamos de 200 milhões de habitantes. E melhor, um povo gentil e hospitaleiro.

 

 

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador, membro
da ABC – Academia Barretense
de Cultura – Cadeira nº 29

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