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segunda-feira, 04 de março de 2024

Artigos

A Busca da Criança Interior

Era uma vez duas meninas que moravam no mesmo corpo. Uma destemida, decidida, andava sempre a frente de todos a sua volta, inclusive até do seu pai e sua mãe; que por não terem muito tempo para as bobagens de criança, nem percebiam.
A outra, já era carente, precisava de colo, se sentia insegura perante o mundo, e sofria com a falta de atenção dos pais.
A menina destemida cresceu, conquistou seu espaço no mundo, nunca teve medo das lutas, e sempre se levantava depois de cair. Já a carente, ficou parada no mesmo lugar, precisava de alguém para a conduzir; mas esse alguém nunca aparecia… Isso a impedia de crescer, ano após ano…
Como moravam no mesmo corpo, com o tempo a situação foi se agravando, pois uma não conseguia acompanhar a outra, e as duas se prejudicavam mutuamente.
Enquanto a destemida se encontrava no topo da montanha, a insegura não conseguia se arriscar, ficava lá em baixo esperando que pudessem a levar ao cume. Só que todos estavam ocupados demais com suas próprias vidas, e acabavam esquecendo da pequena frágil, ofuscada cada dia mais.
Para elas era difícil demais viverem longe, já que sempre estiveram tão perto. A distância foi se tornando dolorida, sentiam muitas saudades uma da outra, e isso as consumia dia a dia, até não conseguirem mais sentir alegria.
Depois de muitos dias tristes, por fim a que estava no topo teve uma ideia: Não iria mais esperar alguém trazer sua alma gêmea até ela, percebeu que se quisesse voltar a ser feliz novamente, precisava encarar os desafios, descer a montanha que tivera escalado com tanto esforço e buscar sua criança interior.
Foi assim que aconteceu… Nesse trajeto descobriu o quanto a descida é mais difícil que a subida! Caiu várias vezes, se machucou, chorou, pensou em desistir, mas persistiu. Depois de muito esforço, já exausta, conseguiu enfim dar as mãos para a pequena, que ali a esperava, assustada e apreensiva.
Quando suas mãos se tocaram, uma linda magia aconteceu, uma força sobrenatural invadiu cada uma, e juntas caminharam com destino ao topo. A caminhada não foi fácil, tiveram inúmeras dificuldades, mas o desejo de desistir já não mais fazia parte do percurso.
Enfim o grande dia chegou, juntas comemoraram a vitória da preciosa conquista de uma vida. Nesse exato momento, algo estranho ocorreu, elas se tornaram do mesmo tamanho e se fundiram, ali já não havia mais duas meninas, e sim uma grande mulher.

 

 

Erika Borges, cronista e escritora,
autora dos livros: Crônicas e Reflexões
da Vida e Crônicas e Reflexões na
Pandemia, Mediadora de Biblioterapia

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