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segunda-feira, 17 de junho de 2024

Artigos

A burguesia

Ao tempo da Idade Média (476 a 1453) a sociedade europeia era distribuída em três estamentos: o clero, a nobreza e o povo. Os dois primeiros tinham a propriedade das terras e o poder religioso, político, econômico e militar, enquanto o último se submetia a eles. Dentre o povo surgiu a burguesia, que se tornou classe socioeconômica influente ao longo desse período.
Concorriam, também, correntes artísticas e arquitetônicas, das quais as primeiras foram a românica e a gótica durante o período de domínio do teocentrismo, doutrina que considera Deus o centro de tudo. Ele é a fonte de todas as coisas e da sabedoria, concedida às pessoas através da fé e da Igreja.
A Europa era distribuída em feudos, nos quais aos servos cabiam todas as tarefas agrícolas, metalúrgicas e artesanais para suprir os senhores feudais com tudo o quanto fosse necessário. O excedente dessas tarefas era negociado pelos servos com outras pessoas nas feiras — ou praças de mercados. Destas surgiram a burguesia — devido à mercancia — e as cidades-mercado, que também passaram a ter corporações de ofício.
Paralelamente a essa nova classe socioeconômica, a Catedral de Santa Maria da Flor (1296-1436), em Florença, inaugurou o antropocentrismo, o humanismo, o renascimento, foi a primeira obra renascentista, criou o primeiro arquiteto — Bruneleschi — e foi a primeira vez que se pensou a arquitetura como conjunto de princípios preordenados, dissociada das corporações de ofício.
O antropocentrismo e o humanismo tornaram os humanos a medida de todas as coisas e as respostas deviam estar na razão — e não nas Sagradas Escrituras. Elas não substituíram a influência divina; em vez disso, deram às pessoas profundo conhecimento sobre a natureza para nela detectar e identificar as obras divinas.
Acreditava-se que a razão conheceria o projeto de Deus para criar o mundo e seria o caminho para d’Ele se aproximar. O ser humano era o microcosmo e devia ser a representação perfeita do macrocosmo — criado por Deus –, cujo efeito reduziu a força do ascetismo religioso — a fé acima da razão –, que durante a Idade Média disputava a hegemonia contra o mundo material — a razão justifica a fé.
Ambas as correntes filosóficas justificaram a ascensão econômica da burguesia, que, ao final da Idade Média, adquiriu poder econômico igual ou superior ao dos nobres e senhores feudais e permeou a economia de diversas cidades, como foi em Florença e Veneza, por exemplo. O renascimento foi o auge socioeconômico da burguesia, a qual destacou-se na Idade Moderna e promoveu a Revolução Francesa (1789).
Conclusivamente, a burguesia surgiu das medievais feiras — ou praças de mercado — e o antropocentrismo junto ao humanismo a justificaram, perante Deus e a Igreja, com suporte na razão. O renascimento foi conduzido pela burguesia, a qual conquistou a hegemonia com a Revolução Francesa e desde então deu nova roupagem ao mundo, como hoje conhecemos. Nada a mais.

 

 

Marcelo Augusto
Paiva Pereira, arquiteto
e urbanista

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