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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Artigos

A arte de ensinar e a arte de aprender

O professor e filósofo da University of Cambridge, Ludwig Wittgenstein, diz que “os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”. Numa versão metafórica pode-se afirmar que ‘as perguntas que fazemos apontam o ribeirão onde desejamos beber’. Com essas palavras deseja-se dizer que os educadores precisam refletir, sempre, sobre as necessidades dos alunos, as perguntas mais simples que fazem em sala de aula. Afinal, essas perguntas revelam o mundo de cada ser que se coloca diante do professor, esse grande educador do mundo. As perguntas revelam a sede de conhecimento dos alunos. Assim, também, revelam a arte de ensinar e a arte de aprender.
tre a arte de ensinar e a arte de aprender existe uma grande diferença, não obstante acharem-se ambas intimamente entrelaçadas. Em geral, quem começa a aprender o faz sem saber por quê. Inicialmente pensa ser por necessidade, por uma exigência dos pais, da sociedade, por um desejo de muitas outras coi­sas às quais costumam atribuir esses porquês. Mas quando já co­meça a vincular-se àquilo que aprende, vai despertando na pessoa interesse e, ao mesmo tempo, reanimam-se as fibras ador­mecidas da alma, que começa a buscar, chamando ao estudo, gerando os estímulos que irão criar a capacidade de aprender.
Os mundos dos estudantes são imensos! Sua sede não se mata bebendo a água de um mesmo ribeirão! Querem águas de rios, lagos, lagoas, fontes, minas, chuva, poças d’água. Enquanto as respostas dos professores revelam, muitas vezes, as águas que perderam a curiosidade, as águas do ribeirão conhecido, comumente a repetição da mesma trilha batida que leva ao mesmo lugar. É preciso atrair o aluno, despertá-lo para o novo, para o mundo, mostrar que a vida oferece milhões de lições, que eles saibam escolher as melhores. Motivá-los a isso, a empreender viagens pelos livros. O professor é o mediador entre o conhecimento e a aprendizagem.
Todavia, não se pode perder de vista que ensinar é antes de tudo um ato de AMOR. Pois toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. E esse afeto não é dar beijinhos, fazer carinho. Afeto, do latim affetare, quer dizer ir atrás. O “afeto” é o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.
Por isso tudo é bom ao professor ouvir seus alunos. É nas conversas com eles que se observam os mundos diferentes que se cruzam na sala de aula. Thomas Mann (2010), no seu livro José do Egito, conta de um diálogo entre José e o mercador que o comprara para vendê-lo como escravo, no Egito: -“Estamos a um metro de distância um do outro. E, no entanto, ao seu redor gira um universo do qual o centro és tu e não eu. E ao meu redor gira um universo do qual o centro sou eu, e não tu.” É fascinante esse diálogo por que traduz mundos distantes que se aproximam do professor, em sala de aula. E ouvir esses mundos é dialogar com a multiplicidade da vida. É ter oportunidade de descerrar portas, janelas antes não visitadas ou abertas para o OLHAR atento e sábio do professor.
Diante desse mundo escola/professor/aluno, deixam-se, neste texto, duas indagações: o que é o que o ser aprende, e para que ele aprende? As respostas não são difíceis. Aprende-se e continua-se aprendendo, ad­quirindo hoje um conhecimento e amanhã outro, de igual ou de diversa índole. Primeiro se aprende para satisfazer às ne­cessidades da vida, tratando de alcançar, por meio do saber, uma posição, e solucionar ao mesmo tempo muitas das situa­ções que a própria vida apresenta. Ler e compreender o mundo, uma necessidade básica do viver.
Hoje, raros são os professores que têm prazer de ensinar e se dedicam aos alunos. Muitos acham que estão perdendo tempo precioso, um tempo em que poderiam dedicar a escrever artigos, preparar livros, fazer pesquisas. Mas aquele SER que é um verdadeiro professor toma a sério somente as coisas que estão relacionadas com os seus estudantes – inclusive consigo mesmo. Por isso tudo, espera-se que um dia professores, em suas conversas, falarão menos sobre os programas e as pesquisas e terão mais prazer em falar sobre os seus alunos, sobre a construção de um mundo melhor para todos. A EDUCAÇÃO é o único caminho capaz de moldar vidas, mudar o mundo, torná-lo mais humano e melhor para as pessoas viverem.

Luísa Galvão Lessa Karlberg – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

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