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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Artigos

9 de julho – a data magna paulista

Caros leitores,
O dia 9 de julho nos remete ao movimento heroico paulista e seus bravos soldados. Símbolo da união de todos por um ideal. Instituída através da Lei nº 9.497, de 5 de março de 1997, assinada pelo governador Mário Covas, a data magna do Estado São Paulo, refere-se ao início da Revolução Constitucionalista de 1932, cujo embate durou quase três meses, com término em 2 de outubro, com a rendição dos revolucionários, após uma batalha sangrenta contra as tropas legalistas do governo de Getúlio Vargas.
Nós, os paulistas, estávamos desgostosos com os desmandos e o pensamento ditatorial do governo provisório, instalado após a Revolução de 1930, com a nomeação de Interventores para os Estados e outras arbitrariedades. Aspirávamos a uma nova Constituição, visto que, a de 1891, a primeira da República, havia sido anulada, e além disso, a oligarquia dos cafeicultores ligada ao PRP – Partido Republicano Paulista, estava descontente e visava reconquistar o comando político perdido.
Vale ressaltar que, vários movimentos populares eclodiam na capital paulista, porém, o estopim da Revolução aconteceu em uma revolta na noite de 23 de maio de 1932, no centro da cidade, com grande participação de estudantes universitários, comerciantes, profissionais liberais, escritores e poetas, que, com brados cívicos exigiam convocação de eleições. Entretanto, a polícia reprimiu com violência a manifestação, deixando um rastro de morte, entre elas: Mário Martins de Almeida, com 31 anos, estudante do Colégio Mackenzie; Euclydes Bueno Miragáia, com 21 anos, auxiliar de cartório; Dráuzio Marcondes de Souza, de apenas 14 anos; e Antonio Américo de Camargo Andrade, com 31 anos, casado, deixando a esposa e três filhos. O fato causa indignação na sociedade, que decide fundar o M.M.D.C., inicialmente sob sigilo, cuja sigla é composta pelas iniciais dos nomes dos quatro jovens mortos, respeitando a eufonia, tornando-se um dos símbolos do movimento. Abriga-se na Faculdade de Direito do largo de São Francisco e passa a exercer um papel importante de apoio aos revolucionários, numa verdadeira operação de guerra, formando um exército constitucionalista, entre outras ações, passa a atuar na organização, criando diversas comissões; na ‘Campanha do Ouro para o bem de São Paulo’, muitas famílias se despojaram de anéis, alianças, colares, para compor um fundo para a compra de armamentos; e, ainda, na arregimentação e treinamento dos voluntários, conseguindo mobilizar 35 mil homens, que somaram à Força Pública, contra 100 mil soldados do governo Vargas.
A 9 de julho de 1932, é deflagrado o movimento armado em busca de dias melhores para São Paulo e o Brasil. Nós, de Barretos, não ficamos indiferentes, centenas de barretenses se alistaram no Batalhão ‘Teopompo de Vasconcellos’, que foi juntar-se a outros batalhões espalhados pelo Estado, dando o sangue e lutando em diversas trincheiras.
Outro incentivo importante veio através do engajamento dos meios de comunicação, como os jornais e as emissoras de rádio. A Rádio Record de S. Paulo, nas vozes dos locutores César Ladeira, Nicolau Tuma e Renato Macedo, sobre as notícias da guerra, tinha como fundo musical a Marcha ‘Paris-Belfort’, de A. Farigoul, que se torna o hino dos revolucionários.
O nosso movimento conseguiu adesão da população em geral, homens, mulheres e até crianças, se prontificaram, necessário fosse, a seguirem para o ‘front’. A participação da mulher foi valorosa na retaguarda, como enfermeiras; costureiras, na confecção das fardas; e no preparo da alimentação da tropa; as participações da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de S. Paulo, da Escola Politécnica, da Associação Comercial de S. Paulo, entre outras, foram relevantes na confecção de capacetes, de armamentos e munições e as tecelagens no fornecimento de tecidos para o fardamento.
Infelizmente, não conseguimos agregar ao movimento, após o recuo, os estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, que também exigiam a nova constituição. Dessa forma, ficamos isolados no campo de batalha no enfrentamento das tropas legalistas.
Apesar de todos os esforços, era notável a inferioridade de nosso material bélico e o raro apoio aéreo, no entanto, com criatividade e astúcia foram produzidas ‘engenhocas’ que visavam enganar e levar pânico às fileiras governistas, entre elas, a ‘Matraca’, inventada pelo professor e engenheiro Otávio Teixeira Mendes, do Batalhão Piracicabano, que consistia, como descreve Glauco Carneiro: “(…) Nada mais era do que um aparelho dispondo de uma roda dentada, na qual tocava numa lâmina de aço, girando aquela em alta velocidade, provocando, assim um ruído aterrador de fogo de metralhadora”.
No entanto, com o coração paulista dilacerado, assinamos a rendição a 2 de outubro de 1932, sendo que as principais lideranças do movimento foram exiladas em Portugal.
Porém, a insurreição paulista não foi em vão, fomos vencidos militarmente, mas o governo de Getúlio convocou eleições para a Assembleia Constituinte, em 1933, que promulgou a nova Constituição do Brasil, de 1934.

José Antonio Merenda
Historiador e membro da ABC – Academia Barretense de Cultura – Cadeira nº 29.

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