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sábado, 29 de março de 2014

Artigos

31 de março de 1964

Para compreendermos esta data, em que o Brasil mergulhou em uma ditadura militar, é preciso voltar no tempo, na década de 1950, na conturbada posse de Juscelino Kubstichek. No entanto, em um recorte, vamos analisar os fatos a partir da posse de Jânio Quadros, ocorrida em 31 de janeiro de 1961, e seu curto período no Palácio do Planalto, apenas sete meses. A sua política externa batia de frente com a Guerra Fria, que dividia o mundo em dois pólos: capitalismo defendido pelos Estados Unidos e o  socialismo tendo audaz defensora a  URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Jânio fazia questão de ignorar a situação. Em uma série de iniciativas, alegando objetivos econômicos, em agosto de 1961, condecorou “Che” Guevara com a insígnia do Cruzeiro do Sul e também o astronauta russo, Yuri Gagarin, além de manter as relações diplomáticas com a ilha de Cuba. Como medida econômica, enviou o então vice-presidente, João Goulart, em missão comercial à China, de Mao-Tse-Tung. No dito popular, Jânio cutucava a onça com vara curta. Os Estados Unidos não via com bons olhos as atitudes do governo brasileiro, chegando a estremecer as relações com os norteamericanos, e também não agradando aos países do leste europeu. Em 25 de agosto, alegando que forças ocultas o atingiam, renunciou.   
Com João Goulart, o Jango, no poder, o Ministro das Relações Exteriores, San Tiago Dantas, foi encarregado de tomar as providências iniciais para o reatamento das relações diplomáticas com a URSS. Com relação à política interna o governo necessitava resolver os problemas econômicos e sociais do país, como a inflação galopante, cuidar da população urbana, que crescia vertiginosamente, resolver os problemas da área da saúde, habitação, transporte, saneamento e da população rural. Para resolver esses problemas foi elaborado o Plano Trienal, pelo economista Celso Furtado. San Tiago Dantas vai a Washington buscar recursos para viabilizar o plano, no entanto trouxe apenas parte dos recursos solicitados, condicionando o restante a um plano de estabilização econômica e de reformas.
O governo não se entendia e Jango cada vez mais se aproximava das forças à esquerda, os sindicatos dos trabalhadores ficavam cada vez mais fortes e a radicalização da sociedade enfraquecia a posição dos militares moderados e legalistas, defensores da Constituição, Amauri Kruel, Peri Bevilacqua e Castelo Branco, que já não confiavam na capacidade de Goulart de manter a ordem social e política.  
O estopim das manifestações que culminou com o golpe militar, foi, no entanto, o comício na Central do Brasil, ocorrido em 13 de março de 1964, onde o presidente João Goulart, anunciou as Reformas de Base, como a reforma agrária, reforma eleitoral ampla, reforma tributária, com a taxação das grandes fortunas, medidas estas favorecendo a classe trabalhadora, causando descontentamento na elite, em setores da Igreja Católica, amplos setores da classe média e os conservadores, que promoveram várias revoltas, temerosos pela implantação do comunismo no país. Em 19 de março, aconteceu em São Paulo, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, organizado pelos setores conservadores, apoiados por setores da Igreja, da Sociedade Rural Brasileira, da União Cívica Feminina, reunindo cerca de 500.000 pessoas, pela afirmação da liberdade e repúdio ao comunismo. As Forças Armadas em reação defensiva, se mobilizaram, traçaram uma logística, contando com o apoio do poderio naval estadunidense, caso fosse necessário. O presidente João Goulart foi deposto, sem oferecer resistência, evitando talvez uma guerra civil. Os militares assumiram o comando da nação, os quais vinham se preparando há anos, instaurando uma ditadura militar no Brasil, que permaneceu por 21 anos, restringindo os direitos civis e políticos pela violência. 
 
Fontes: (CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil – O Longo Caminho/Nosso Século – Abril Cultural) 
 
Profº. José Antonio Merenda
Ator, diretor teatral, historiador e presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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