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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Artigos

Por que comemoramos Tiradentes?

No século XVIII, o Brasil ainda se encontrava como Colônia de Portugal, e era dividido em capitanias comandadas por representantes da Coroa Portuguesa, porém, no país já havia uma estrutura que permitia a formação de uma elite colonial. Na região das Minas Gerais, essa elite se compunha dos donos das minas, funcionários públicos, militares de alta patente, latifundiários, etc.
Essa elite mantinha uma relação tranquila com os administradores das capitanias até o Governador Luís da Cunha Menezes chegar em Minas e desfavorecer essa elite a fim de favorecer seu grupo pessoal de amigos. Porém, a situação se agravou quando Cunha Menezes foi substituído pelo Visconde de Barbacena, que teria o direito de se apropriar de todo ouro existente ali para garantir o repasse a Portugal e, se não fosse o suficiente, poderia decretar um imposto a ser pago por cada morador da capitania, a “derrama”. Além da permissão de investigar e punir aqueles que tinham dívidas com a Coroa que, em sua maioria, eram membros da elite.
O descontentamento da aristocracia mineira com a Coroa Portuguesa aumentava cada vez mais; Parte dos membros da elite mineira fazia parte dos brasileiros que estudavam em Coimbra, onde tinham acesso às ideias novas que rodeavam o continente, como as ideias de Independência (e sua efetivação nos Estados Unidos) e República, por exemplo.

Onde Tiradentes entra nessa história?
Seu nome era José Joaquim da Silva Xavier, órfão de pai e mãe, perdera as terras da família por conta de dívidas. Ingressou na carreira militar aos quase 30 anos em um cargo de baixo escalão e ganhou o apelido de Tiradentes por trabalhar como dentista nas horas vagas, ou seja, ele não fazia parte da Elite. Apesar disso, sofreu com as mudanças da administração das capitanias ao perder seu posto de comandante do destacamento dos Dragões que patrulhava a Serra da Mantiqueira.
Com a ameaça do Governador declarar a derrama, no fim de 1788 o grupo descontente e devedor da elite junto de Tiradentes se organizaram para promover um ato rebelde que atacava o domínio português sobre o Brasil e clamava por uma república. Seus planos, porém, não se concretizaram uma vez que Silvério dos Reis, um desses devedores descontentes denunciou o movimento em troca do perdão da Coroa. O Governador suspendeu a derrama e a morte desses rebeldes foi exigida até que uma carta da Rainha portuguesa pediu apenas a expulsão destes do Brasil. De todos eles, menos de Tiradentes.
Com a Declaração de Independência dos Estados Unidos em 1776, a Revolução que destituiu os reis da França em 1789, a revolução do Haiti que acabou com a escravidão e declarou Independência em 1804 fez com que a Coroa Portuguesa tendesse a dramatizar a condenação de pelo menos um rebelde e escolheram, claro aquele que não fazia parte da elite.
Assim, em 21 de abril de 1792 Tiradentes foi enforcado, depois teve seu corpo esquartejado e sua cabeça exposta na praça pública de Ouro Preto. O movimento ficaria conhecido como Inconfidência Mineira, ou seja, uma falta de fidelidade da capitania com a Coroa, e seus participantes como “inconfidentes”.
A Coroa acreditava que estaria ameaçando e coibindo qualquer manifestação com a violência em que Tiradentes fora exposto. Tinha fé que usá-lo como exemplo do que acontece aos traidores, conteria qualquer ameaça contra a metrópole e que sua figura seria eternamente assimilada com vergonha e infidelidade. O que a Coroa não sabia era que, quando o Brasil se tornasse República, a figura de Tiradentes mataria a sede republicana por heróis nacionais.
Por mais que no período do Império (1882 – 1889) a figura de Tiradentes tenha permanecido como a de um traidor, a Proclamação da República em 1889 ajudou na transformação de Tiradentes em mártir republicado. Todo drama português em torno de sua condenação só fez com que sua imagem fosse cada vez mais mitificada. Os republicanos e a própria República recém-nascida precisavam de um herói que ajudasse a construir a imagem nacional, pois uma nação precisa de seus “homens ilustres”. Tiradentes conveniente, era branco, adentrara um movimento de elite contra a Metrópole portuguesa e também convenientemente fora morto pelos seus ideais. Preenchia todos os requisitos para se transformar em herói.
Ignoraram o fato de que Tiradentes não lutou para que a escravidão acabasse, mas sim pelo fim das dívidas da Elite Mineira. Ocultar esses fatos faz parte da criação de um mito. Traçar sua imagem semelhante à imagem do Cristo europeu ajuda no processo de dignificação de um herói e é por isso não comemoramos o Dia da Inconfidência Mineira e sim o Dia de Tiradentes, o mártir.
Um movimento parecido aconteceu em 1789, na Bahia e ficou conhecido como Conjuração Baiana. Eles defendiam, também, a proclamação da República e o livre comércio. No entanto, o grupo era formado principalmente por negros libertos, militares de baixo escalão, alfaiates – ou seja – a parcela fragilizada da população. Defendiam fortemente a Libertação de todos os escravizados e o fim da escravidão. Igualmente reprimidos, nenhum membro virou mártir. Nenhum dia virou feriado.
No final de contas, quem são os heróis de nosso país? São esses grandes nomes mitificados por interesses políticos, como Tiradentes, José Bonifácio e Getúlio Vargas ou quem pouco aparece nos livros de história, como os inconfidentes baianos que representavam a parcela marginalizada do povo?

Professor e historiador Douglas Matricarde, egresso do curso de História da Faculdade Barretos

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