Artigos
A importância do empreendedorismo no Brasil
O conceito
Ao falar sobre indivíduos empreendedores, Amit (1993) observou: “estes indivíduos ultrapassaram seus limites, enfrentando e superando as dificuldades, tanto da época quanto pessoais e desenvolveram negócios lucrativos e duradouros. Mesmo quando não tiveram êxito em um primeiro momento, não desistiram e recomeçaram”. A palavra empreendedor é derivada da palavra francesa entrepeneur, que foi usada pela primeira vez em 1725 pelo economista irlandês Richard Cantillon para designar o “indivíduo que assumia riscos”. Embora a palavra tenha quase três séculos de existência, a origem do empreendedorismo se perde no tempo. Antes de abordar o empreendedorismo no Brasil é necessário compreender como evoluiu esse conceito.
Os primórdios do empreendedorismo
Se considerarmos a evolução humana, pode-se dizer que o homem primitivo já possuía uma veia empreendedora. Naquela época, para sobreviver era necessário construir diversas ferramentas que tinham por objetivo agilizar a caça de animais. Para se ter uma ideia, o Homo Habilis, um dos ancestrais da atual raça humana, surgiu há aproximadamente 2 milhões de anos, e já possuia hábitos de caça. Milhares de anos se passaram e um importante salto para o empreendedorismo ocorreu com as grandes civilizações antigas. Um bom exemplo são os egípcios, famosos por suas pirâmides. Para construir uma dessas maravilhas, estima-se que eram necessários 30 mil homens e 20 anos de trabalho. Na agricultura pode-se observar a perspicácia desse povo, que aproveitava a cheia do rio Nilo para preparar a terra para o plantio da safra seguinte. Além disso, eles foram muito importantes para áreas como a matemática e a engenharia.
Empreendedorismo em ascensão
Mas o que eram apenas esforços para a sobrevivência (dos homens primitivos) e demonstração do conhecimento acumulado ao longo dos séculos (como as construções edificadas pela civilização egípcia), posteriormente ganhou contornos econômicos a partir do século XV. Pelas palavras de Fernand Braudel “as grandes concentrações econômicas pedem concentrações de meios técnicos e o desenvolvimento da tecnologia: assim ocorreu com o Arsenal de Veneza no século XV, com a Holanda no século XVII, com a Inglaterra no século XVIII”.
O século XVI também merece especial atenção. Movidos pela efervescência das feiras internacionais da época (as feiras de Antuérpia, de Frankfurt e de Lyon são alguns exemplos), os europeus desbravaram o mundo em uma época que ficou conhecida como o período das Grandes Navegações. Holandeses, ingleses, portugueses e espanhóis são os grandes representantes desse movimento, expandindo suas missões empreendedoras pelos demais continentes do mundo.
A inteligência e a eficácia do trabalho humano cresceram de tal forma que a produção (principalmente de mercadorias e alimentos) tornou-se excessiva. Para dar vazão a esse acúmulo é que surgiu o mercantilismo, a semente de tudo que conhecemos hoje em termos de empreendedorismo.
O empreendedorismo no Brasil
Foi a partir do século XVII que os portugueses, percebendo a imensidão e o grande potencial de exploração do território brasileiro, começou a ocupar definitivamente essas terras, distribuindo-as aos cidadãos portugueses, vindos principalmente da região de Açores. Dentre os homens que realizaram os mais diversos empreendimentos (muitos deles à custa de trabalho escravo degradante), um merece destaque: Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá. Descendente dos primeiros empreendedores portugueses, ele foi responsável pela fabricação de caldeiras de máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, armas e tubos para encanamentos de água. Foi responsável também pelos seguintes empreendimentos
• Organização de companhias de navegação a vapor no Rio Grande do Sul e no Amazonas;
• Implantação, em 1852, da primeira ferrovia brasileira, entre Petrópolis e Rio de Janeiro;
• Implantação de uma companhia de gás para a iluminação pública do Rio e Janeiro, em 1854;
• Inauguração do trecho inicial da União e Indústria, primeira rodovia pavimentada do país, entre Petrópolis e Juiz de Fora, em 1856.
Seu legado foi tamanho que ele ainda hoje é reconhecido como uns dos primeiros grandes empreendedores do Brasil. Ao longo do século XX outros empreendedores também deixaram sua marca na história brasileira. São eles:
Luiz de Queirós – precursor do agronegócio brasileiro e grande incentivador da pesquisa cientifica no setor. Foi o criador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), umas das unidades fundadoras da USP;
Attilio Francisco Xavier Fontana – foi deputado, senador e vice-governador de Santa Catarina. Mas seu legado maior foi a criação do Grupo Sadia (Atual Brasil Foods, resultado da fusão entre Sadia e Perdigão);
Valentim dos Santos Diniz – fundador da rede de supermercados Pão de Açúcar, Valentim Diniz revolucionou o varejo com novas formas de atendimento ao cliente, alterações nos sistemas de embalagem, refrigeração, técnicas de venda, publicidade e administração, influenciando padrões de consumo e comportamento.. O que era apenas uma doceria no ano de 1948 hoje se tornou um grande grupo, dono das marcas Pão de Açúcar, Extra, Compre Bem, Sendas, Assai e Ponto Frio.
Guilherme Guinle – foi proprietário da Companhia Docas de Santos, da Companhia Siderúrgica Nacional, e responsável pela abertura do primeiro poço de petróleo no Brasil, em Lobato, na Bahia, além de oferecer grandes doações pessoais por meio da Fundação Gaffrée & Guinle para a pesquisa científica nacional;
Wolff Klabin e Horácio Lafer – criadores da primeira grande indústria de celulose brasileira, a Klabin;
José Ermírio de Moraes – responsável pela transformação da Sociedade Anônima Votorantim em um grande conglomerado, o Grupo Votorantim, que atua em diversos segmentos, como têxtil, siderurgia, metalurgia, cimento e produtos químicos. O grupo também é dono do Hospital Beneficência Portuguesa.
Os desafios do empreendedorismo
Hoje vivemos um período de efervescência do capitalismo (apesar da atual crise econômica). Existe de fato uma competitividade voraz em que prevalece a lógica darwiniana da sobrevivência do mais forte e, por esse motivo, estimular o empreendedorismo é fundamental para o crescimento econômico de uma nação. Embora existam inúmeros exemplos de empreendedores brasileiros, o país ainda caminha a passos lentos rumo ao fortalecimento do empreendedorismo como uma cultura nacional. Não podemos negar que existem iniciativas louváveis de fomento ao empreendedorismo, principalmente na forma de cursos. Mas ainda faltam muitos investimentos, públicos e privados, para pesquisas científicas no mundo acadêmico. O Brasil também está muito atrás, por exemplo, com relação ao número de patentes. É preciso um conjunto de medidas que fortaleçam esse conceito. Governo e organizações devem se unir para elaborar um sistema de desenvolvimento do empreendedorismo, com incentivos fiscais, desenvolvimento de novos cursos, fortalecimento de pesquisas científicas e formalização de patentes, estímulo da cultura empreendedora em regiões mais remotas, etc. Não é uma caminho muito difícil de ser trilhado, basta apenas muita força de vontade.
André Luiz Bastos: Licenciado em Educação Física UNESP Bauru, Licenciado em Filosofia pela Universidade Nacional de Cuyo – Faculdade de Filosofia e Letras Mendoza – Argentina, Mestre em Educação pela UNFRAN – Franca SP, Doutor em Ciências da Educação pela UNCUYO – Universidade Nacional de Cuyo – Faculdade de Filosofia e Letras Mendoza – Argentina e Pós-Doutorado pela UNRTEF – Universidade Tres Febrero Buenes Aires– Argentina. Coordenador do NAD – Núcleo de Apoio ao Docente e Professor nos cursos da Faculdade Barretos. Prof.andrebastos@hotmail.com.