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terça-feira, 02 de agosto de 2016

Artigos

Homenagem a Helena Miguel Rezek

Foi numa manhã de uma segunda-feira de julho. O dia tinha amanhecido com tímidos raios de sol, que logo se foram, assim como o sopro de vida naquele quarto de UTI, no centro de São Paulo. Era como se os filhos e netos tentassem segurar até o último instante uma longa linha de uma rabiola que levava uma pipa colorida para perto do sol. A pipa voou para um céu azul, ensolarado, a quilômetros dali, como se quisesse de despedir dos 94 anos vividos em Barretos. A cidade lhe havia dado muito. E ela soube retribuir. 
Se pudesse voltar no tempo, seria possível ver a pequena Helena chegando no colo de sua mãe, depois de uma viagem marcada por incertezas e esperança que teve início no Líbano dos anos 20. Assim como os antigos fenícios, o povo comerciante que deu origem aos libaneses, Jorge, o pai, conquistou patrimônio através da arte de comprar e vender como chefe de comitiva boiadeira. Helena, ainda muito criança, recém-letrada, se tornou uma espécie de administradora dos alugueis do pai. Dividia a lição de casa com os livros-caixa. E não cansava de declarar o amor que tinha pelo patriarca da família. 
Quando o pai se foi, coube a ela a ajudar a mãe, que pouco falava português, a cuidar as duas irmãs mais novas. E antes mesmo de completar 15 anos, o irmão mais velho foi buscá-la na escola para dar a grande notícia: Helena iria casar! O noivo já estava escolhido, era um rapaz um pouco mais velho, de uma boa família barretense, que tinha origem síria. O jovem tinha pinta de galã. Mesmo com o receio típico da idade, Helena obedeceu o irmão. E quando viu pela primeira vez, Mehde, o pretendente, não teve mais medo: sim, ela se apaixonou. 
Helena foi aquela grande mulher que todos dizem estar por trás dos grandes homens. Enquanto Mehde se aventurava na política e no comércio, era Helena quem comandava o lar e a criação dos 8 filhos, toureando com sabedoria personalidades tão distintas. Com pulso firme, ensinou a todos princípios de amor e de respeito ao próximo. 
Não havia quem não se sentisse em casa diante de uma mesa posta da família Rezek. Ela se preocupava com os pobres, com os velhos e até com os mortos. O asilo da cidade foi sua grande devoção. E a porta de casa ficava aberta para quem quisesse chegar. Da horta dela, saia hortelã para as esfihas e as folhas de uva para o charuto. 
Junto com ela, vão-se os sabores e os conselhos. Até os últimos dias de vida, Helena Miguel Rezek foi grata pela cidade que lhe acolheu, onde construiu uma família que vai muito além do sangue e plantou sábias palavras no coração dos que a cercavam. Agora, esses perguntam com um grande pesar: quem irá nos aconselhar? O dia ficou frio e a saudade dói.

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