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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Artigos

Nunca é demais falar sobre bullying

Nunca é demais falar sobre bullying, um fenômeno comportamental que tem assombrado crianças e jovens, sobretudo no ambiente escolar. Apelidos dolorosos, sarcásticos e cenas de humilhação pública estão na base dessa violência emocional. A infância e a adolescência representam um dos principais períodos na formação do ser humano, especialmente no que se refere à construção da identidade e à constituição do ser social. Em outros tempos, a família era alicerce da formação dos principais valores que fundamentavam as relações: afeto, limites, tolerância, respeito e limites.
Hoje, a escola se tornou um dos principais agentes socializadores das crianças, já que cada vez mais cedo ingressam no sistema escolar. Para além das questões relativas à escolarização da criança, é na escola que ela exercita a convivência em grupo. Sai do ambiente doméstico para participar de outras relações, nas quais ela já não é mais o centro das atenções, e tem que aprender a dividir, a esperar sua vez, a aceitar o outro e a lidar com suas frustrações. Quando o processo de formação social do indivíduo, mediado pelos pais e educadores, não é realizado de maneira adequada, as crianças podem vir a encarar suas decepções com irritação, descontrole e até fazer uso da força bruta para fazer valer sua vontade.
A imitação de um padrão de comportamento conflituoso, explosivo ou hostil; a influência do que é veiculado na mídia; a falta de relacionamentos pessoais positivos, em um clima de amor e solidariedade; a falta de atenção e de estímulos necessários a um desenvolvimento sadio; a falta de limites; a pobre e ineficiente atenção que recebe; o desenvolvimento da sensação de não ser amado e, portanto, de não ser capaz de construir novos relacionamentos satisfatórios e saudáveis estão entre os motivos que podem estar na origem desse tipo de comportamento.
Contudo, se nos preocupa a figura do agressor/opressor, também devemos refletir sobre a passividade do agredido/oprimido. O que faz nascer e perpetuar esse tipo de relação tão doentia? Os alvos de bullying geralmente sentem-se incapazes de esboçar qualquer reação, até mesmo buscar alguém para compartilhar suas angústias por conta de um forte sentimento de insegurança, agravados pela intervenção acrítica ou até mesmo pela indiferença do adulto. Portanto, não dispõem de recursos, status ou habilidade para reagir ou fazer cessar os atos danosos contra si.
Acabam por ter poucos amigos, muitos passam a ter baixo desempenho escolar, podendo resistir ou recusar-se a ir para a escola, chegando a simular doenças. Trocam de colégio com frequência ou abandonam os estudos. Há jovens que chegam a desenvolver extrema depressão e/ou incapacidade para aprender. A punição certamente não é o melhor caminho, mas sim a conversa que reflita as dinâmicas da família e da escola.
Cabe à escola, espaço de aprendizagem e de formação, interromper esse ciclo vicioso entre as partes em conflito, desenvolvendo atividades baseadas na cooperação, participação, iniciativa e criatividade de todos os seus alunos. Trabalhar de forma cuidadosa todas as situações relacionadas ao comportamento social trará a possibilidade de oferecer um novo padrão de comportamento a ser imitado e valorizado.
Duas práticas são muito eficientes: conversar com o objetivo de esclarecer e refletir, além de construir combinados. Uma conversa que leve a uma profunda reflexão e à mudança de comportamento, e os combinados, que são tratos estabelecidos quando o aluno está mais fortalecido com os recursos internos, passando a ser um exercício de responsabilidade, sempre com o apoio do educador. Dessa maneira, cria-se condição para que o aluno viva melhor suas relações com o outro.
 
Paula Virgínia Viana Cantos é psicóloga e  Orientadora Educacional do Colégio Graphein, escola inclusiva em São Paulo
 

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