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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Artigos

Autonomia e eutanásia: a afirmação da bioética de um sujeito transformador de seu processo saúde-doença

A obra “Mar Adentro”, poesia escrita por Ramón Sampedro, propala os sentimentos do autor para com seus anseios quanto às condições a que fora imposto pela tetraplegia e o desejo de findar seu sofrimento, encerrando sua vida. O poema fora publicado postumamente no livro “Cuandoyoucaiga”, em 1998.Assim, o autor busca suplantar as interpretações superficiais dos impactos e das potencialidades que tais concepções apregoam na vida dos indivíduos.  Ramón Sampedro, espanhol que trabalhara na marinha mercante, sofreu um acidente aos 25 anos de idade, o que lhe deixou tetraplégico e “preso a sua cama” pelo resto de sua vida. 
Tendo em vista sua incapacidade física de realizar qualquer atividade, desejava suicidar-se, findando seu sofrimento. Entretanto, a justiça espanhola não permitia que a eutanásia fosse realizada, uma vez que considera esta como um homicídio. Desta forma, o poeta foi o primeiro espanhol aentrar com recursos na jurisdição para o suicídio assistido, ato que não lhe fora concedido. Apesar de não ter permissão para realização da eutanásia, Ramón Sampedro suicidou-se em 1998, 29 anos após o acidente que o deixou tetraplégico, com a ingestão de cianureto.O poema e a posição do eu-lírico acerca da determinação da justiça sobre o controle de sua vida podem ser analisados sob a ótica dos princípios da bioética, que promulga a transcendência de uma compreensão quanto à justiça, autonomia, beneficência e não-maleficência que conferem respeito aos enfermos enquanto sujeitos de sua própria vida e morte.
A integralidade da cultura técnico-científica das ciências biológicas com a cultura humanística cristaliza a essência da ética aplicada à vida. Dessa forma, a emancipação de uma análise crítica acerca da autarquia individual permite que o sujeito seja ativo e transformador de seu processo saúde-doença, o que reflete na efetivação dos princípios bioéticos.Pautando-se no desejo de sanar seu sofrimento, interrompendo a vida indigna imposta a ele, e ter o direito de subordinar sua escolha ao seu livre-arbítrio, Ramón Sampedro revela, por meio do anseio pela eutanásia, os conflitos bioéticos que envolvem o dilema acerca da finitude da vida: “Mas me desperto sempre/e sempre quero estar morto/ para seguir com a minha boca/ enredada em teus cabelos”.
O respeito para com a autonomia do indivíduo, atentando para a transcendência do estado vulnerável ao qual se impõe ao enfermo, torna-se a epítome da afirmação do sujeito como transformador de seu processo saúde-doença. Assim, a integralidade das ciências humanas conjugada com as ciências biológicas promulgam a essência da ética da vida que não devem ser sobrepujadas aos desejos de outrem. 
 
Ana Carolina MarliéreBeolchi (Aluna do 5º período do curso de Medicina da Faculdade de Ciências da Saúde de Barretos Dr. Paulo Prata – FACISB) e Lillian Ponchio e Silva Marchi (Coordenadora do Curso de Direito da Faculdade Barretos e Professora do Curso de Medicina da Facisb)

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