Artigos
Vida mais ativa será legado do ano olímpico
Ao se falar em legado deixado na realização de uma Copa do Mundo, como foi em 2014, ou de uma Olimpíada, como a que estamos prestes a vivenciar, logo se pensa em obras e melhorias de infraestrutura construídas pelas regiões por onde passam as competições. O que pouco se discute, entretanto, é a amplitude de benefício que eventos esportivos dessa magnitude podem trazer ao país, inclusive no que diz respeito à educação e capacitação profissional.
O esporte, enquanto instituição, apresenta diversas faces, que muitas vezes são interpretadas de maneira errada, inclusive por profissionais da área. Há a face do negócio, da profissão – ou melhor, profissões -, existe a face do show e do entretenimento, bem como as faces da ciência e pesquisa, da mídia e da política. Ter claro o que o esporte representa em cada uma dessas faces é um passo determinante para poder realmente aproveitar algum possível legado olímpico de maneira inteligente e efetiva.
Belo e plasticamente sedutor, o esporte é encantador. É instigante em termos de desafio de performance e de busca de limites nas execuções surpreendentes de profissionais ‘iluminados’ geneticamente.
Com os Jogos Olímpicos, presenciaremos um espetáculo de profissionais que aliam à escolha de uma modalidade o encaixe perfeito de sua qualidade genética. Claro, soma-se a isso muito preparo e orientação, além de imensa vontade de se dedicar para estar ali, tentando se superar o tempo todo. Isso é o esporte.
Então, surge a pergunta: de seu ciclo de relacionamentos, quantos conhece com a somatória de todos esses fatores essenciais para a busca de um improvável sucesso dentro do esporte?
Possivelmente, a resposta será nenhum ou raros conhecidos. E são tão raras essas pessoas que, em geral, os atletas de sucesso, que efetivamente se sobressaem no esporte, viram celebridades. E com todo o mérito. Muitos se destacam às custas de lesões, dores, cirurgias e outras dificuldades, alguns até convivendo com o medo diante de ameaças de torcedores mais agressivos.
Todos esses fatos mostram que imaginar que o esporte é algo para todas as pessoas, enquanto face da profissão, é utópico. Ele é para poucos. Nesse sentido, é preciso desfazer a grande confusão que se faz ao misturar o esporte com a atividade física, o exercício e o jogo. A transferência do sonho esportivo/olímpico de vitória e glória para a vida de crianças carentes ou para pessoas comuns traz ao esporte uma responsabilidade social cujo qual ele não é capaz de lidar.
A atividade física regular, por sua vez, dentro de um jogo ou modalidade, sem intuito de competição ou de profissionalismo, com uma grande carga de ludicidade e cooperação, é que pode ter um papel social importante. É justamente aí que entra a missão do profissional de educação física, desde que executada de forma inclusiva.
É um erro aproximar pessoas da atividade física por meio apenas do esporte. Hoje, instituições de ensino e seus profissionais de educação física valorizam os mais habilidosos, com potencial, e acabam por esquecer os outros alunos, com menos habilidade e que compõem a maioria da sala. Isso acontece desde os primeiros anos escolares.
Competição e esporte são excludentes. O legado olímpico deve vir com a estimulação consciente em cada jovem. As escolas, dentro das aulas de Educação Física curricular, não devem pensar em situações competitivas onde os bons em termos de habilidade e de genética possam se sobressair sobre os menos avantajados. Essa diferença técnica esportiva aparece por mil fatores, que vão muito além do que a disciplina é capaz de ensinar.
Fazer o jovem experimentar dezenas de movimentos e modalidades, de modo que entenda e tente descobrir qual gosta mais, compreender o que é necessário fazer para que se consiga melhorar uma habilidade que goste e quando quiser se desenvolver de maneira inteligente, poder praticá-la sem pensar em comparação com o melhor ou com o pior, mas fazê-la com prazer, em situações de cooperação, de maneira regular, é essencial para que o grande evento esportivo deixe um grande legado para os nossos pequenos. E isso só acontecerá com a transformação, com a atualização dos profissionais de educação física, bem como com a mudança na forma de atuação.
Um passo importante para tal mudança será dado no dia 12 de março, em São Paulo, com a realização do “Top Of The Rock”, um evento que reunirá os principais palestrantes na área de saúde e de atividades físicas do país para debater o futuro e as novidades que cercam a profissão de educador físico.
O objetivo é reunir estudantes e profissionais da área para uma experiência de aprendizagem dinâmica acerca do que há de mais novo em termos de ciência aplicada à atuação profissional. O momento é propício, aproveitando-se os holofotes sob o esporte com a Olimpíada do Rio de Janeiro.
É preciso mudar de vez a cara da educação física no país. É necessário dar mais qualidade, ferramenta e conhecimento para o profissional que atua nesse segmento, para que ele saia da inércia e retome a vontade de evolução na profissão. Um educador físico bem preparado e motivado certamente se transforma em exemplo e incentivo para a sociedade como um todo se mover mais e buscar uma vida mais saudável.
Cristiano Parente é professor e coach de educação física, eleito em 2014 o melhor personal trainer do mundo em concurso internacional promovido pela Life Fitness