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A QUESTÃO DA VIDA
Recentemente o Papa Francisco publicou a Carta Encíclica LaudatoSí (Louvado seja) a cerca do cuidado com o planeta Terra, a casa comum que Deus confiou ao cuidado dos seres humanos, criados à sua imagem e semelhança.
Os acontecimentos ocorridos no início deste mês, nas proximidades de Mariana, no estado de Minas Gerais, ou seja, o rompimento da barragem de rejeitos Fundão, da Samarco Mineradora, que devastou cidades, terras, rios, cujo saldo de destruição está longe de ser avaliado, nos levam à uma questão que está no centro da Carta EncíclicaLaudato Si: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão crescendo”?
Francisco diz que esta pergunta “não toca apenas ao meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode por a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos do mundo que queremos deixar, referimo-nos, sobretudo, à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes”.
Trata-se de uma questão colocada com coragem, que nos leva, afirma o papa, obrigatoriamente “a outras questões muito diretas: com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? (…) Exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra”.
Considerando estas afirmações do Papa Francisco, acredito que a catástrofe ocorrida com o rompimento da barragem de rejeitos, propriedade da Samarco Mineradora, exige de nós uma reflexão mais aprofundada. Sem dúvida, o saldo de mortes, da devastação provocada e o impacto ambiental merecem uma reparação rápida e justa, sobretudo considerando a situação daquelas cidades ribeirinhas que necessitam da água dos rios contaminados para sobreviver.
Mas, será importante que nos coloquemos as questões propostas pelo Papa Francisco, acima elencadas e, consideremos que um mundo onde o poder econômico determina as relações, as políticas públicas e o uso do meio ambiente, está condenado à falência e à morte.
É preciso acordar para o fato de que mais importante do que o lucro está a vida. Mais importante do que o que podemos acumular é garantir qualidade de vida para todos, pois de nada nos valerá viver se não garantimos vida com qualidade para todos.
Dom Milton Kenan Júnior
Bispo de Barretos