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Vivendo a história recente da Cardiologia
Um privilégio. Esta é, creio eu, a melhor forma de expressar a sensação de termos vivido os últimos 30 anos atuando como cardiologistas.
No início dos anos 80, algumas coisas eram muito, muito diferentes mesmo. A chegada ao Pronto-Socorro de uma pessoa com infarto do miocárdio era, como ainda é hoje, dramática. Sedávamos a dor intensa, tratávamos arritmias, normalizávamos a pressão arterial, procurávamos manter a oxigenação do sangue. Mas uma artéria coronária, totalmente obstruída, ia progressivamente causando a necrose do músculo cardíaco por ela irrigado.
Naqueles velhos tempos, nada mais havia a ser feito, naquele momento. Ao longo das horas seguintes, nós testemunhávamos, impotentes e aflitos, a instalação do choque progressivo, consequente à falência da bomba cardíaca. E muitos pacientes encontravam a morte inexorável, bem ali, diante de nossos olhos.
Aos sobreviventes – e seus corações enfraquecidos por um infarto extenso – muitas vezes restava apenas se conformar com uma vida mais curta e mais triste, cheia das enormes limitações impostas pela insuficiência cardíaca. Morriam uns, poucos meses depois, consumidos de falta de ar. Morriam outros subitamente, tombando fulminados por arritmias letais.
Esta era a história de muitos infartados, mesmo dentro dos maiores centros de Cardiologia, dispondo dos melhores médicos e dos mais modernos recursos. A mortalidade hospitalar do infarto, no final dos anos 70 e começo dos 80, era próxima a 20% – perdia-se uma, em cada cinco vidas. Em hospitais gerais, não especializados em Cardiologia, os números eram ainda mais funestos.
Mas a difusão de novas técnicas e conhecimentos alargaram as fronteiras – e ampliaram os horizontes – da Cardiologia. Nos dias de hoje, tenho o privilégio de contar, no hospital geral em que trabalho, com recursos que permitem garantir vida saudável à maioria dos infartados.
A chegada de um infartado ao nosso Pronto-Socorro, empalidecido pela dor insuportável, suando frio e respirando com dificuldade, ainda é dramática como há 30 anos. Mas a semelhança para por aí. Começa uma nova e moderna história que, na maioria das vezes, tem final feliz.
“Tempo é músculo!”, palavra de ordem na Emergência. Confirmada a presença do infarto, a qualquer hora do dia ou da noite, o paciente é encaminhado com rapidez para o setor de Hemodinâmica. E a artéria coronária é desobstruída por uma angioplastia – a tempo de interromper a evolução do infarto e salvar o músculo cardíaco que iria se perder, com consequências funestas.
O paciente está em choque, seu coração bombeando apenas uma fração do sangue de que o organismo necessita? Podemos lançar mão de dispositivos que realizam uma circulação assistida – e normalizam a oxigenação dos órgãos, preservando a vida enquanto se planeja uma intervenção salvadora. Há outras artérias coronárias com lesões graves, prestes a causar novos infartos? Podemos desobstrui-las com angioplastias, utilizando “stents” cada vez mais aperfeiçoados. Ou restituir-lhes o fluxo sanguíneo com a cirurgia cardíaca.
Arritmias graves trazem risco ao sobrevivente da fase aguda do infarto? Podemos mapear e eliminar o foco destas ameaças pela Eletrofisiologia. Podemos, ainda, proteger o paciente da morte súbita com um desfibrilador implantável, que reconhece e reverte arritmias letais.
Nosso paciente apresenta insuficiência cardíaca, após atravessar a fase aguda do infarto do miocárdio? Técnicas de diagnóstico mais sofisticadas estão à disposição, abrindo-lhe a janela de oportunidade para tratamentos específicos. Podemos identificar uma assincronia na contração dos ventrículos por Ressonância Magnética ou Ecocardiograma Tissular – e o melhor, podemos corrigi-la com um dispositivo de ressincronização ventricular. Podemos identificar músculo cardíaco saudável, que não se contrai apenas por não receber irrigação suficiente, mediante Ressonância Magnética. Podemos encontrar obstruções arteriais graves insuspeitadas, utilizando o Ultrassom Intracoronário.
Podemos e fazemos. Cardiologia de hoje – com fronteiras cada vez mais distantes e horizontes cada vez mais amplos – em nosso hospital geral. Um privilégio.
Luiz Velloso, cardiologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo