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DIA DOS PAIS
Bom Dia Barretos.
Sábado passado estava em Londres, visitando meu filho, razão pela qual deixei de participar desse bate papo semanal tão agradável. Mas, retornando, não poderia deixar de cumprimentar, em especial, todos os pais barretenses e através das ondas da Rádio Jornal, aos milhares de pais espalhados pelo mundo afora. Passei um domingo maravilhoso com meu filho, e agradeci a Deus por essa convivência.
Agora, retornando, e ao começar a escrever o artigo, comecei a confabular com os meus botões: qual a razão que leva frequentemente pais e filhos a se desentenderem? O pai, ao conceber um filho, assume uma missão, a missão de educar e preparar o seu filho para a vida. Por outro lado, o filho encara muitas vezes os conselhos e as orientações paternas como críticas, ou “pegação no pé”, termo muito usado pela nossa juventude. Mas é quando o velho já se foi, e principalmente quando se torna pai, e acaba usando dos mesmos métodos para buscar o melhor para seu filho, que vai entender que o velho pai era o seu melhor amigo, além de muito sábio.
Só que, lamentavelmente, o ombro amigo não está mais entre nós e só então percebemos que era ele que tinha razão. Por isso hoje, ao saudar os pais, pelo seu dia, quero também pedir um pouquinho da atenção dos filhos para que possam analisar as palavras, os atos, e os conselhos dos pais. Assim é que se constitui uma família, onde pais têm a obrigação de orientar seus filhos, preparando-os para a vida e para que um dia, possam também constituir uma família, onde a compreensão e o diálogo possam predominar.
Lembrei-me da historia de certo homem que um dia, ao receber um telegrama, abrindo-o leu: – Seu pai faleceu. Enterro às 18 horas. Mamãe. – José continuou parado, olhando para o vazio. Nenhuma lágrima lhe veio aos olhos, nenhum aperto no coração. Nada! Era com se tivesse morrido um estranho. A mãe sabia que pai e filho não se davam bem. A coisa havia chegado ao final no dia em que, depois de mais uma chuva de acusações, José fez as malas e partiu, prometendo nunca mais por os pés naquela casa. No velório, poucas pessoas, a mãe estava lá, pálida, gelada, chorosa. Quando reviu o filho, as lagrimas correram silenciosas. Foi um abraço de desesperado silêncio.
Após o funeral ele ficou em casa com a mãe até a noite, prometendo que voltaria trazendo netos e esposa para conhecê-la. Agora, ele poderia voltar à casa, porque aquele que não o amava não estava mais lá para dar-lhe conselhos ácidos nem para criticá-lo. Na hora da despedida, a mãe colocou-lhe algo pequeno e regular nas mãos dizendo: encontrei entre os guardados mais importantes dele… Num gesto mecânico colocou no bolso. Minutos depois de começar a viagem, meteu a mão no bolso e sentiu o presente. Era uma pequena caderneta de capa vermelha. Abriu-a curioso. Na primeira pagina, no alto, reconheceu a caligrafia do pai: “Nasceu hoje o José. Quase quatro quilos. O meu primeiro filho, um garotão. Estou orgulhoso de ser pai daquele que será a minha continuação na terra!” À medida que folhava, sentia um aperto na boca do estômago, mistura de dor e perplexidade. Na outra pagina: “Hoje meu filho foi para a escola. Está um homenzinho. Quando o vi de uniforme, fiquei emocionado e desejei-lhe um futuro cheio de sabedoria. A vida dele será diferente da minha, que não pude estudar por ter sido obrigado a ajudar meu pai. Mas, para o meu filho, desejo o melhor. Não permitirei que a vida o castigue.”
Outra pagina: “José me pediu uma bicicleta, meu salário não dá, mas ele merece porque é estudioso. Fiz um empréstimo que espero pagar com horas extras.” José mordeu os lábios. Lembrava-se da sua intolerância, das brigas feitas para ganhar a sonhada bicicleta. Se todos os amigos ricos tinham uma, por que ele também não poderia ter a sua? E, quando, no dia do aniversário, a recebeu tinha corrido para os braços da mãe sem sequer olhar para o pai. Detestava aqueles olhos sempre vermelhos, sem jamais suspeitar, que eram de trabalhar até a meia noite para pagar a bicicleta! Numa outra pagina: “Hoje fui obrigado a levantar a mão contra meu filho! Desejei que ela tivesse sido cortada, mas foi preciso tentar chamá-lo à razão. José anda em más companhias, tem vergonha da pobreza dos pais e, se não for disciplinado, amanhã será um marginal.” “È duro para um pai castigar um filho e bem sei que ele poderá me odiar por isso; entretanto, devo educá-lo para seu próprio bem. Foi assim que aprendi a ser um homem honrado, e esse é o único modo de ensiná-lo.” José fechou os olhos e reviu toda a cena quando, por causa de uma bebedeira, tinha ido para a cadeia; e, naquela noite, se o pai não tivesse aparecido para impedi-lo de ir ao baile com os amigos… Lembrava-se apenas do automóvel retorcido e manchado de sangue que tinha batido contra uma árvore… Parecia ouvir sinos, o choro da cidade inteira enquanto quatro caixões seguiam lugubremente para o cemitério. As páginas se sucediam com, ora curtas, ora longas anotações, cheias de respostas que revelavam quanto em silêncio e amargura, o pai o havia amado.
O “velho” escrevia de madrugada. A última pagina. Aquela do dia em que ele havia partido: “Deus, o que fiz de errado para meu filho me odiar tanto? Por que sou considerado culpado, se nada fiz senão tentar transformá-lo em um homem de bem?” José fechou depressa a caderneta. O peito doía. O coração parecia haver crescido tanto que lutava para escapar pela boca. Nem viu o ônibus entrar na rodoviária. Levantou-se aflito e saiu quase correndo, porque precisava de ar puro para respirar. A aurora rompia no céu e mais um dia começava. Lembrou-se então de um dia ter ouvido a seguinte frase: Honre seu pai para que os dias de sua velhice sejam tranquilos! Uma lágrima brotou como o orvalho, e erguendo os olhos para o céu, de repente sorriu e desabafou numa confissão aliviadora: – Se Deus me mandasse escolher, eu juro que não queria ter tido outro pai que não fosse você velho! Obrigado por tanto amor e me perdoe por ter sido tão cego.
BOM DIA BARRETOS.