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sábado, 01 de agosto de 2015

Artigos

Tratamento barato da cegueira

Pesquisadores liderados por David Hutton, professor assistente de gestão e de política da saúde na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan, verificaram que apenas a escolha de uma droga em detrimento de outra para tratar a cegueira poderia economizar bilhões de dólares ao Medicare (sistema de seguros de saúde gerido pelo governo dos Estados Unidos da América).
 Se os médicos oculistas do Medicare escolhessem o bevacizumab (comercializado com o nome Avastin) que custa US$ 55 por tratamento e não o ranibizumab (cujo nome comercial é Lucentis) que é vendido a US$ 2023 para cada dose, ou seja, quase 40 vezes mais caro, implicaria em uma economia aos contribuintes US$ 18 bilhões, no período avaliado de 10 anos.
Além disso, os pacientes com a forma húmida da degeneração macular ou que têm edema macular diabético poderia economizar US$ 4,6 bilhões do próprio bolso, já que pagam parte do tratamento e, no resto do sistema de saúde dos EUA, poderia economizar US$ 29 bilhões.
O pior é constatar que as duas drogas têm eficácia semelhante no tratamento destas doenças e ambos têm efeitos colaterais e perfis de segurança razoavelmente comparáveis quando usado para tratar a doença de olho, dizem os pesquisadores.
 Como a quantidade de doentes assistidos pelo Medicare continua a crescer, identificar meios de economizar, mas mantendo qualidade de tratamento ao paciente é cada vez mais importante. Ainda mais que o gasto com saúde é de 18 por cento do PIB e está em crescimento. Mais de 2 milhões de pacientes com idade superior a 65 têm estas doenças oculares, e estima-se que até 2020 cerca de 3 milhões de pessoas vão experimentar deficiência visual da degeneração macular relacionada à idade.
O estudo da equipe foi destaque na edição de junho da Health Affairs e vem corroborar os dados divulgados em abril 2014 pelos Centros de Serviços da Medicare e Medicaid, mostrando que os 17 mil oftalmologistas receberam 5,6 bilhões dólares em pagamentos do Medicare em 2012. Os oftalmologistas figuraram entre os maiores gastos, sendo que a maior parte dos reembolsos a esses especialistas foi para cobrir o custo de ranibizumab.
Se são drogas semelhantes, por que uma custa tão mais caro? A bevacizumab foi originalmente criada como um medicamento de luta contra o cancro, administrada em doses muito elevadas para retardar o desenvolvimento de vasos sanguíneos, inibindo assim o crescimento de tumores. No edema macular diabético e em uma forma particular de degeneração macular, é o crescimento anormal de vasos sanguíneos na retina que causa a cegueira. Assim, se usado no olho, a medicação tem como alvo o sangramento e inchaço que ocorre na retina e encolhe os vasos sanguíneos.
Por vários anos os médicos têm usado bevacizumab para tratar estas doenças oculares “off label”, ou seja, prescrito para um uso diferente do previsto inicialmente. Na sua dose completa para o tratamento do cancro (cerca de 150 vezes a concentração das injeções oculares), a droga é cara pela dose.
Com esse estudo, os cientistas esperam sensibilizar os médicos para que optem pelo tratamento mais barato. E o exemplo vale para outras áreas também e para um país como o Brasil cuja saúde é um direito do cidadão e dever do Estado.
 
 
Mario Eugenio Saturno (cienciacuriosa.blog.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.

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