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O ser inexistente existe?
Sol, calor, pombos nas lajes e sacadas das lojas e cheiro de café. Às vezes, nuvens e frio. Mas os bombos sempre estão lá. O cheiro de café depende muito do horário: ou no final da tarde ou no começo do dia.
E foi assim, em um desses dias, após chegar de viagem, atividade cotidiana e quase semanal – no máximo duas semanas e lá estou eu, chegando de viagem e buscando um copo de café nos bares localizados ao redor da pacata e mau cheirosarosa rodoviária da minha cidade natal –, com a mala em uma das mãos e o celular na outra, que decidi tomar, ao invés de café, uma garrafa de cerveja, tendo em vista o horário – já se passava das 10h –, além do calor insuportável, típico da maioria das cidades interioranas paulistas.
Quando eu já me encontrava acomodado na mesa do bar, José Humberto, dono do estabelecimento, ofereceu-me meia porção de salame. “É por conta da casa. Experimente e me diga o que achou…” – disse, antes de voltar para trás do balcão. Ao lado, uma mesa com dois rapazes: um de bota, calça jeans, camiseta polo, óculos de lentes um pouco escuras, de bigode branco, cabelos um pouco mais escuros, porém de tom grisalho bem avançado, dando-lhe a impressão de já ter ultrapassado os cinquenta, mas de ainda não ter completado os sessenta; o outro, um pouco mais jovem, beirava os quarenta, ao que parece, usando uma bermuda de pano bege, tênis esportivo, camiseta simples e óculos de sol bem preto.
Quando eu já estava na metade da primeira garrafa – nesse dia tomei mais duas, aproveitando a hospitalidade do seu Zé Humberto –, de repente o mais velho começa:
– Esses dias, quando fui comprar um chapéu para Ricardo, empregado da fazenda, uma atendentezinha reclamou da minha demora na escolha do produto, como se tivesse algum direito de falar alguma coisa – fez cara de prepotência, deu um gole no conhaque, repetindo o gesto outras duas vezes, até esvaziar o copo. – Eu virei para ela – continuou –, questionando-a sobre quem ela pensava que era para me tratar daquele jeito, colocando-a em seu lugar, chamando-a de empregada de terceira categoria – ao concluir, pediu mais uma dose de bebida.
O rapaz mais jovem, entre uma coçada na perna, gesto de quem espanta algum inseto indesejável, e uma revirada na cadeira, respondeu, ainda se recuperando da gargalhada sarcástica:
– Fez bem! – falou e escarrou pela porta na calçada. – Se fosse eu, teria ido mais além, reclamando do mau atendimento ao dono da loja. Mas pensando bem – falou meio entre os dentes –, não compensa perder tempo com essa gentinha, porque era uma mera empregada, sem importância alguma. Creio a resposta ter bastado para que ela se colocasse no lugar dela. Além do mais… ah!, mudemos de assunto… Vai ficar só no conhaque hoje? – perguntou ao companheiro e, em seguida, chamou o Zé, pedindo-lhe uma porção de frios e outra cerveja, enquanto esperava o amigo decidir se continuaria no conhaque ou se mudaria a bebida.
Ao prestar atenção nesse pouco de diálogo, lembrei-me de algumas coisas lidas havia algum tempo, as quais, em geral, envolviam parte do pensamento de Foucault a respeito do tema. A noção de ser profissional é criação humana; antes um pouco, a noção de ser social é criação humana. Quando nos caracterizamos de alguma forma, como sendo médicos, dentistas, engenheiros, lixeiros – sim, lixeiros, tendo em vista a sua extrema importância no meio social, por que não? –, estamos diante de noções da criação humana. Uma profissão é mais valorizada do que a outra porque tal valor lhe foi atribuído pelo homem, seja pela sua importância social, seja pela fama alcançada ao longo do tempo.Talvez a importância social não tenha valor quando a questão é valorização, porque, assim como o médico é importante, por exemplo, para a manutenção da vida, um gari também é importante para a manutenção da saúde humana e, consequentemente, da vida. Então, o que explica o alto valor de uma e a baixa valorização de outra? O esforço intelectual? O curso superior? O dinheiro gasto durante a formação profissional? Tudo isso é criação humana.
Lembrei-me, ainda, de Agilulfo, personagem de Calvino em O cavaleiro inexistente, o qual somente existia, por causa de sua identidade social “Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura”, e que se dintinguia, ainda, pela “impecável armadura branca”. Calvino retrata o a figura do ser humano que só existe porque tem uma função social; a função de Agilulfo era ser mais um soldado de Carlos Magno entre centenas de outros. Não incomodava o fato de ser um soldado inexistente, apenas contando com a sua armadura para existir no mundo; bastava, porém, que cumprisse com a sua obrigação: defender o exército comandado por Magno. Dentro da armadura não existia ninguém, mas isso parecia não incomodar os seus companheiros de batalha. Existia um soldado, vestindo armaduras, pronto para combater o inimigo, e isso bastava.
Será que somos seres únicos, cada qual com a sua personalidade própria? Ou seríamos todos figuras cumpridoras de suas funções sociais, deixando de lado, assim, a nossa essência particular, o nosso valor individual?
Logo deixei o bar e fui em direção ao terminal rodoviário. Na entrada da estação, fui abordado por um casal de mendigos os quais pediam dois reais para, segundo eles, “inteirar o preço de uma marmita”. Ignorei a abordagem porque sabia que o motivo de estarem pedindo dinheiro não era comida e, seguindo o meu caminho, adentrei ao terminal, desci a rampa de acesso às plataformas de embarques, tomei o ônibus que me levava até a minha casa, chegando ao meu destino final depois de meia hora.
Franco de Paula Gonçalves é graduando em Letras pela UNESP – São José do Rio Preto