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Batizados no fogo
João Batista declarou ao povo que o acompanhava para que não restasse dúvida de sua identidade: eu vos batizo na água, mas eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Ele tem a pá na mão e limpará a sua eira, e recolherá o trigo ao seu celeiro, mas queimará as palhas num fogo inextinguível (Lc 3,16-17).
Não custa lembrar que batismo significa mergulho, imersão. Podemos ver em João (3,6) sobre o ritual dos judeus no primeiro milagre de Cristo: achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas (a medida judaica bath equivalia a 40 litros, assim nas talhas cabiam 80 ou 120 litros).
Mas como associar batismo, imersão em água, com fogo? Pe. Léo dizia que o homem estava criando no coração portas de contenção contra o fogo do Espírito Santo, tornando o coração blindado por uma frieza e uma espiritualidade morna, que não provoca. Isso porque não queremos o fogo da provação, tememos a provação.
Não devemos ter medo porque a provação gera constância e esta gera esperança. E São Paulo nos ensina com seu exemplo (Rom 5,3-5): mas nos gloriamos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.
É o próprio Cristo quem diz (Lc 12,49-50): eu vim lançar fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso! Mas devo ser batizado num batismo; e quanto anseio até que ele se cumpra!
Isaias nos ensina que o fogo purifica (6,5-7): ai de mim, gritava eu. Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo (também) de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos! Porém, um dos serafins voou em minha direção; trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz. Aplicou-a na minha boca e disse: Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada.
E do Eclesiástico (2,1-17) vem a lição: se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação. Põe tua confiança em Deus e ele te salvará; orienta bem o teu caminho e espera nele. Conserva o temor dele até na velhice. Ai daqueles que perderam a paciência, que saíram do caminho reto, e se transviaram nos maus caminhos. Que farão eles quando o Senhor começar o exame?
Os que superam o medo, incendeiam com o fogo do Espírito. E um fogo como de palha, que como dizia o Pe. Léo: é preciso que os padres adicionem lenho nesse fogo para que ele não venha a acabar rapidamente! Fica a dica de quem tanto fez pela Igreja!
Mario Eugenio Saturno é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.