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terça-feira, 05 de agosto de 2014

Artigos

Mas se fazem mal, por que tantas pessoas usam drogas?

É tarde da noite. Os pais, desconfiados que o filho estivesse usando drogas, conversam na cama. A preocupação é tamanha, que a mãe se levanta e vai preparar um café. A caminho da cozinha, passa pelo quarto do adolescente, abre bem devagar a porta, sem fazer barulho, e observa por alguns segundos, pelo movimento do cobertor, que o jovem está respirando (mania de mãe).
Enquanto isso, o pai leva à varanda seu jornal e folheia, enquanto toma um cálice de um bom tinto suave pra relaxar.
__ O que faremos com esse menino? – perguntou-se o pai, segurando um pino transparente com restos de pó, que a mãe encontrou escondido no estojo escolar de seu filho.
O jovem, quando criança, era muito rebelde, bagunceiro, ia mal nos estudos, dava ares de um comportamento acelerado, e por isso um velho amigo balconista de farmácia receitou um remedinho para essa hiperatividade.
Chorando, a mãe acendeu um cigarro e experimentou um gole de café.
__ O médico mandou tomar um comprimido pra dormir, já estou no segundo e nada do sono chegar. – desabafou.
__ Fique tranquila amor. – confortou o pai, olhando fixamente para o copo de vinho, já vazio – Tomei uma decisão. Amanhã mesmo resolvo isso. Vou falar com esse moleque, e se eu perceber que ele está usando droga, tiro ele do colégio particular, corto a mesada, proíbo de sair com os amigos, e se não adiantar, arrumo um jeito de interná-lo, mesmo que seja à força.
* * *
Cenas como essa são muito comuns nas famílias brasileiras. Pais, mães ou responsáveis legais atormentados pelo pesadelo de imaginarem, para seu desespero e vergonha, que os filhos serão escravos das drogas.
Antes de tudo, antes mesmo de agirem precipitadamente e complicarem ainda mais a situação, é necessário que os pais e filhos conheçam o que cerca essa questão: “Afinal, por que as pessoas usam drogas?”.
Todo mundo, sem exceções, busca a satisfação imensa que o prazer proporciona, é físico, é natural, é da cultura da humanidade, desde os registros escritos mais antigos.
Ao invés de tentarem encontrar prazer nos esportes, no sexo, na religião ou em outras atividades que ofertam sensações agradáveis, algumas pessoas decidem colocar no organismo algo a mais, que consideram importantes, tanto para a fuga dos problemas do dia-a-dia quanto para recreação.
E é aí que entram as drogas. Droga nada mais é que uma substância que tem por finalidade dar a quem usa um prazer.
Perceba, na breve história contada no início deste artigo, que os pais encontraram no estojo do filho o que julgaram ser uma cápsula com resíduos de cocaína, uma droga procurada pelos jovens para alcançar a sensação de euforia e anestesia.
Esse mesmo jovem, quando criança, teve administrado em seu corpo, por um balconista de farmácia, um medicamento poderoso para o tratamento de déficit de atenção e hiperatividade, e sabe-se lá qual influência esse gesto absurdo exerceu no desenvolvimento intelectual e porventura da personalidade do adolescente.
Contudo, enquanto debatiam a situação do filho, a mãe, que estava sob o efeito de uma droga tranquilizante (aliás, o dobro da dosagem que o médico prescreveu), bebia substância para aliviar a ansiedade (café) e fumava um cigarro (acreditando, erroneamente, ter essa droga efeito calmante). Já o pai procurava no álcool (a pior droga de todos os tempos) uma espécie de relaxamento para reflexão.
O prazer de uma droga é muito rápido e custa bastante caro, e essa é uma informação que todos os pais e filhos precisam saber. Nenhuma droga, usada de forma recreativa, faz bem.
Enquanto tudo se resume à diversão e alegria, a coisa toda ganha um contorno que parece fascinante. As gargalhadas do colega que acabou de fumar um baseado e começou a viajar nas conversas filosóficas… As piadas ao redor do primo caído na calçada do barzinho, que vomitou depois do porre de whisky com energético… As lembranças das histórias de viagens psicodélicas causadas pelo LSD na festa de música eletrônica que começou à meia noite e acabou às 11 da manhã, celebrada com as fotos de óculos escuros, ao nascer do sol, publicadas nas redes sociais e curtidas por mais de 50 pessoas…
Enfim, a fase recreativa da droga é, de fato, um prazer sem precedentes. Quem dera se as drogas fossem essa pura e simples satisfação garantida sem malefícios. Porém, não são.
Se fossem boas, não haveria no Brasil mais de 80 substâncias e 8 plantas proibidas, além de dezenas de drogas prescritas mas rigidamente controladas, sem falar nas inúmeras outras que não recebem nenhuma fiscalização adequada, pois não são controladas por lei, contudo são igualmente devastadoras.
Por outro lado, ninguém acende um cigarro de tabaco buscando câncer do pulmão, nem bebe uma vodca com o objetivo de contrair cirrose. Fuma-se e bebe-se para absorver o prazer que essas drogas trazem.
O uso de substâncias pesadas, como crack, maconha, cocaína, álcool e tabaco, ou o abuso de substâncias consideradas mais leves, como café, chocolate, açúcar e sal, mais cedo ou mais tarde, cobram sua taxa.
No final das contas, uma hora ou outra, o destino vai bater palmas na casa do usuário, com gasolina e fósforo numa das mãos e a conta certinha das orgias na outra.
E aí, muitas vezes, é tarde para se lamentar, para chorar, para obter uma cura eficaz.
Para evitar um final de vida doloroso, sofrido, triste, o mais recomendado é nunca experimentar droga alguma.
 
Luciano Quemello Borges, Capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo

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