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Carência, Competência e Gestão
Não bastasse os índices recentemente divulgados que nos colocam “no fim da fila” no índice de desenvolvimento humano, agora surgem novos dados que apontam outra deficiência brasileira: a colocação de nossos estudantes de matemática, quando comparados a jovens de outros países. São fatos preocupantes, mas que pelo jeito que a coisa caminha, não serão alterados, pelo menos a curto prazo.
Se a qualidade de vida da esmagadora maioria de nossa população nos deixa envergonhados, a situação do ensino, principalmente o ensino público, não deixa por menos, principalmente porque uma coisa é associada à outra. E o quadro que é preocupante agrega outros fatores: saúde, segurança, transporte público, entre outros.
E a situação ganha contornos de revolta não apenas quando a notícia é revelada mas também que inicia-se o ano, e o contribuinte se vê obrigado a acertar as contas com o faminto leão do imposto de renda. É sempre nessas ocasiões que todos nós fazemos uma associação entre o que pagamos de tributos e o que realmente recebemos de retorno, algo que justifique o que entregamos ao governo. É nessa ocasião que usamos do direito de espernear, embora saibamos que nada teremos como contrapartida.
Como sabemos que a educação é, e tem que ser a base de tudo, e como estamos acostumados a ver e ouvir os reclamos desse setor, não podemos fugir do assunto. Será que, dotando as nossas escolas de todo o material necessário atingiremos os nossos objetivos? Será que, atingindo os níveis salariais do pessoal da educação, chegaremos ao ponto desejado em termos de preparação do aluno? Será que atendendo plenamente a todas as reivindicações do setor de educação, em todo o país, chegaremos ao objetivo?
Quando vemos uma pequena e humilde escola do nordeste mostrando resultados muito acima dos verificados em São Paulo ou outros estados considerados “mais adiantados”, temos uma resposta que vem com outra pergunta e deve contrariar muita gente do setor, em todo o país: Não estaria faltando algo? Sim, falta! Falta o comprometimento de muitos profissionais da educação, falta a preparação, faltam gestores competentes, falta a cobrança de resultados. E falta o principal que é a redução no distanciamento existente entre direitos e deveres.
E isso se estende do Poder Central ao gestor; do educador aos pais, e principalmente da família que joga para a escola uma responsabilidade que é sua, a de educar o filho ou filha que manda para a escola. Cabe à escola transmitir o conhecimento e aprimorar o que o aluno deveria trazer de casa. Mas o Poder Público e a nossa sociedade não sabem ou fingem desconhecer o assunto.
E enquanto internamente a verdade continua sendo maquiada, no exterior a nossa realidade fica cada vez mais exposta, seja ela num simples concurso envolvendo estudantes de matemática ou na maneira estranha como calculamos e administramos o nosso patrimônio. Talvez seja essa a maneira como é feito o cálculo para se avaliar o valor do que compramos no exterior no mercado internacional, de um simples par de calçados ou uma refinaria de petróleo.
Vitor Sapienza é ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, economista e agente fiscal de rendas aposentado.