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Evocando inutilmente o belo
“Desbussolado”. Seria este um bom adjetivo para Jep Gambardella, 65 anos, escritor de um único livro – titulado “O aparelho humano” – e que faz as vezes de jornalista para uma revista de artes e atualidades. Em “A Grande Beleza”, filme de Paolo Sorrentino, ele é o protagonista da luxúria e da mundanidade na Cidade Eterna, protótipo das cidades ocidentais e sua exuberante e perdida fauna.
Jep se diz misantropo, traduzindo sua falta de rumo em meio aos seus pares, para quem a beleza é efêmera, fugidia e desenraizada, já que supérflua e orientada por um hedonismo radicado no individualismo.
O diretor dá à sua obra marcas fellinianas, inclusive na insônia de que sofre Jep, o que o leva a perambular pelo noturno romano, como fazia Federico (embora, diz-se, de carro). E à maneira deste, fala indiretamente do humano e da política, mais por seus resultados do que por seus meios. Exibe uma sociedade com exacerbado pendor individualista, numa existência orientada pela busca do prazer e na qual o outro não significa nada, a menos que seja útil ao exercício da vaidade, seja pelo desprezo perversamente prazeroso, seja pela submissão aos desejos.
O comportamento das personagens revela fastio por tudo que não se relacione ao limitado universo dos interesses pessoais, numa ignorância das possibilidades do convívio sincero, numa opção pelas trocas utilitárias marcadas por vaidades e exibicionismos. É eloquente a cena em que ricos e fúteis se entregam a um ritual grupal de negação da decrepitude física e confirmação da decadência moral, recebendo aplicação de toxina botulínica.
As personagens se exibem num mundo desenraizado ética e politicamente. Todos se mostram desgarrados de qualquer valor capaz de lhes conferir consistência existencial. A dissidência ensaiada por Jep no embalo por suas angústias não se efetiva. Fica nele a admiração pela santa que come raízes porque nelas encontra, simbolicamente, a firmeza exigida por sua vida ascética. Mas também ali não há direção ou rumo a seguir. Há, apenas, uma epifania do belo, que parece não estar ao alcance da humanidade que o filme retrata.
Caleb Salomão é Advogado e professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito de Vitória (FDV)