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Memória enferma
Outro dia eu ouvi duas mães comentando as diferenças entre o que viam, hoje, nas escolas, com as escolas de seu tempo, lá em meados dos anos cinquenta. Uma delas comentava com todo orgulho que tinha participado do orfeão, que segundo ela, fazia exibições durante as festividades cívicas de sua cidade. A outra mãe, com uma pitada de inveja, dizia que nunca tivera talento para tanto, mas que, nas datas festivas, recitava poesias diante de todos os alunos. Essas apresentações eram sempre aguardadas com muita expectativa por parte dos estudantes, principalmente porque era a oportunidade de se demonstrar o talento, além da sadia competição entre as classes.
Era comum, no passado, em datas como o Dia da Pátria, da Abolição da Escravatura, da Independência ou Proclamação da República, as escolas realizarem desfiles pelas ruas, recitais internos e até exposições temáticas, destinadas a desenvolver o civismo entre os alunos. No currículo escolar havia a matéria Educação Moral, Social e Cívica, que incentivava a participação estudantil e acabava contribuindo de maneira bastante visível para a formação do cidadão.
Ao mesmo tempo em que matavam saudades, as duas mães se queixavam da agitação dos nossos dias, quando, segundo elas, estamos deixando de lado as coisas mais simples, e nos envolvendo mais e mais no mundo da tecnologia. Uma dessas mães, a mais idosa, garantia que em breve os computadores irão ditar os nossos atos e, numa clara alusão ao distanciamento que estaria ocorrendo entre as pessoas, ela dizia antever um quadro extremamente pessimista. Ela falava e citava os constantes atos de vandalismo contra a escola e contra os professores.
Não nos apeguemos aos conceitos dessas duas senhoras. Fiquemos apenas com a constatação de que algo não anda bem das pernas, nesta nossa sociedade individualista. Embora muitos garantam que, quando tratamos assuntos com seriedade e competência, “não perdemos para ninguém”, não dá para aceitar o comportamento de uma sociedade que vira as costas para o vandalismo, para a violência, para a degradação; que não dá atenção às suas origens e que demonstra visível desinteresse quando os mais jovens desprezam os mais simples deveres.
Nos tornamos um país de visíveis contradições, que a um instante pode mostrar um talento inconfundível, e instantes depois pode estar entre as nações mais atrasadas, não apenas na situação econômica, mas pelas consequências do abandono, do descaso, da inoperância. Infelizmente, em muitas ocasiões, fica visível a nossa facilidade em abandonar hábitos sadios, muitas vezes substituídos pela triste e costumeira omissão.
Esse comportamento fica nítido em várias situações, tanto na ciência como na arte; na preservação da memória, e no abandono de nossa força de trabalho representada pelos idosos; nos moradores de rua; na maneira como tratamos a nossa cultura; no abandono de nossas tradições, do nosso folclore, da arquitetura de nossas cidades, do desprezo ao que é belo.
Vivemos com a intensidade de quem tem a pressa como único objetivo, e quase em perceber, vamos desprezando a nossa condição de humanos; e vamos morrendo a cada dia, não a verdadeira morte física, mas a outra, tão dolorida quanto ela, a morte da memória, das tradições. E se desprezamos o essencial, que é o lado humano, o que dizer das demais coisas que nos cercam? E entre tantas e tantas perdas, chega até a ser normal o desaparecimento de celebrações como a Semana do Folclore, a Semana da Pátria, Semana da Asa, Semana do Meio Ambiente; só nos lembramos de determinados feriados quando eles integram o fim de semana prolongado, e a população sai de casa para a praia ou para o campo, e as pessoas se encontram nos imensos congestionamentos das estradas.
Do velho hábito de se comemorar as datas cívicas, tão comuns no mundo escolar, pouco resta. Percebe-se que a sociedade tem pressa, e se esquece de coisas elementares. E quando reivindica algo, o faz sem convicção. O brado, se é que assim podemos citar esse ruído, tem um som oco, nada contundente e destinado ao fracasso. É triste admitir que as vozes são diferentes, e que, dependendo da situação, se transformam em sussurros que sequer ultrapassam a aura dos que pensam em se expressar. E, a cada dia, morremos mais um pouco.
Vitor Sapienza é economista e agente fiscal de rendas aposentado