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Quando a palavra já não basta
Recentemente, durante uma viagem, iniciei uma conversa com o motorista de aplicativo, após notar duas câmeras instaladas no seu carro. Uma gravava o trânsito e a outra, o interior do veículo. Som e imagem.
O motorista, um homem de meia-idade, falava sem pressa, exigindo de quem o escutasse um pouco mais de tempo e atenção, algo já comum em minha profissão.
Foi a partir de seu relato que nasceu este artigo.
Dias antes, ele levara um casal ao aeroporto. Durante o trajeto, os passageiros conversavam apenas entre si. E isto é normal. Alguns passageiros falam com o motorista, outros, não.
Ao final da corrida, entretanto, não houve pagamento. O motorista se restringiu ao que lhe competia, ou seja, registrar no aplicativo o pagamento pendente.
Pouco depois, ele recebe do aplicativo uma notificação. Precisava apresentar sua defesa diante de uma denúncia de assédio feita pela passageira. A mesma que se recusara a pagar.
A acusação não segue adiante, contudo, quase lhe custa o trabalho.
O seu relato me instigou a pensar no quanto precisamos confiar no outro para viver em sociedade. Para além, o que acontece quando preservar a própria imagem parece legitimar a destruição da imagem do outro?
A Psicanálise talvez nos permita pensar essa cena para além do episódio. No momento da acusação, o motorista deixa de ser uma pessoa. Sua vida importava menos do que a necessidade de escapar às consequências de um ato. Coisificação do outro.
Em determinadas circunstâncias, deixamos de reconhecer no outro um semelhante. Ele deixa de existir como alguém que possui uma história, uma família, um trabalho, a sua própria vida, para ocupar apenas uma função na nossa.
E não se trata apenas da ausência de empatia. Trata-se da perda da alteridade, isto é, da capacidade de reconhecer que o outro possui uma existência tão legítima quanto a nossa. Quando essa dimensão desaparece, o sofrimento alheio deixa de produzir qualquer limite ético.
As câmeras continuarão sendo úteis. Elas protegem, documentam e fazem justiça onde a palavra falha. Mas uma sociedade que precisa confiar mais nas imagens do que nas pessoas talvez deva perguntar a si mesma não quantas câmeras ainda faltam, mas o que se perdeu no caminho para que a palavra deixasse de bastar.
Pense nisso.
Sada A. Ali
CRP 06/166892
Psicóloga Clínica – Hospital São Jorge
