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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Esportes

Pelé: o Rei que o tempo ainda não conseguiu destronar

Por Mazinho Dias: O futebol tem um hábito curioso: a cada geração, nasce a convicção de que os maiores jogadores da história são justamente aqueles que ela viu atuar, e isso é um fenômeno natural, pois a memória afetiva pesa, as imagens estão frescas e a tecnologia faz parecer que o presente sempre supera o passado, mas o problema surge quando a admiração pelo ídolo atual se transforma em esquecimento da história.

Recentemente, um jovem repórter de uma importante e conceituada revista esportiva publicou uma relação com os maiores jogadores que vestiram a camisa 7 da Seleção Brasileira, e foram lembrados dezenas de atletas, alguns deles com passagens discretas usando esse número, mas o espanto veio justamente pela ausência daquele que talvez seja o maior camisa 7 da história do futebol mundial: Garrincha.

É difícil acreditar que alguém consiga listar os maiores jogadores da camisa 7 do Brasil sem mencionar o “Anjo das Pernas Tortas”, pois Garrincha foi protagonista das conquistas das Copas do Mundo de 1958 e 1962 e, quando Pelé se machucou no segundo Mundial, carregou praticamente sozinho a Seleção Brasileira rumo ao bicampeonato com sua habilidade desconcertante que encantou o planeta e transformou o futebol em espetáculo, portanto, esquecê-lo é ignorar um dos capítulos mais importantes da história da Seleção.

Infelizmente, essa tendência de supervalorizar o presente também aparece em outras comparações, e há quem diga que Marcelinho Carioca foi maior que Sócrates no Corinthians, enquanto que outros defendem que Arrascaeta já ultrapassou Zico na história do Flamengo, e essas são opiniões que ignoram épocas, contextos e principalmente o impacto que determinados jogadores tiveram muito além das estatísticas.

E inevitavelmente chegamos ao debate mais apaixonante do futebol moderno: Pelé ou Messi?

Lionel Messi não precisa de defesa, pois é um dos maiores jogadores que o esporte já produziu, dono de uma técnica refinada, visão de jogo incomum, capacidade de decisão e uma carreira extraordinariamente vitoriosa, o argentino conquistou praticamente tudo o que um atleta pode sonhar.

Mas há uma diferença fundamental entre ser um dos maiores e ser o maior parâmetro da história e Pelé não se tornou Rei porque alguém decidiu lhe entregar uma coroa: Foi o próprio futebol que a colocou sobre sua cabeça.

Aos 17 anos de idade, ainda um adolescente, encantou o planeta na Copa do Mundo de 1958, fazendo seis gols na fase decisiva, incluindo um hat-trick na semifinal contra a França e dois gols na final diante da Suécia e nenhum jogador tão jovem protagonizou uma Copa daquela maneira.

Veio depois o bicampeonato em 1962, ainda que uma lesão o tenha afastado da maior parte da competição, e em 1970, liderou talvez a seleção mais espetacular de todos os tempos e tornou-se o único jogador da história tricampeão mundial como atleta.

Foi eleito Atleta do Século por diferentes instituições internacionais, recebeu da FIFA o reconhecimento como um dos maiores jogadores de todos os tempos, o Comitê Olímpico Internacional também o escolheu como Atleta do Século, mesmo sem jamais ter disputado Jogos Olímpicos, tamanho era o impacto de sua carreira para o esporte mundial.

Em qualquer continente, bastava dizer “Brasil” para que imediatamente alguém respondesse “Pelé”, chefes de Estado faziam questão de recebê-lo. Reis, rainhas, presidentes e primeiros-ministros disputavam uma fotografia ao seu lado, assim como artistas de Hollywood, músicos, intelectuais e líderes religiosos o reverenciavam.

Sua fama era tão gigantesca que diversas histórias se tornaram lendárias, e uma delas ocorreu na Nigéria, em 1969, quando um cessar-fogo foi anunciado durante a guerra civil para permitir que milhares de pessoas assistissem ao amistoso do Santos.

Outro episódio marcante aconteceu na Colômbia, quando em uma partida do Santos, um árbitro expulsou Pelé, e a reação da torcida foi tão intensa que os organizadores retiraram o árbitro da partida e permitiram que o Rei voltasse ao campo. Talvez nenhum outro jogador da história tenha vivido algo semelhante.

Finalizava com as duas pernas, cabeceava como poucos, era veloz, forte fisicamente, habilidoso, inteligente taticamente, extremamente coletivo, marcava gols de todas as maneiras imagináveis, criava jogadas, dava assistências, organizava o time e decidia partidas importantes.

Não por acaso, tornou-se referência para todos os gênios que vieram depois.

Antes de Messi, Pelé já havia sido comparado a Alfredo Di Stéfano, Ferenc Puskás, Johan Cruyff, Franz Beckenbauer, Diego Maradona, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Cristiano Ronaldo. Todos surgiram como possíveis sucessores do Rei. Todos fracassaram nessa missão.

E essa comparação com Messi, sequer entra em outro aspecto impressionante: a longevidade de sua supremacia, pois quase sete décadas depois de surgir para o mundo, Pelé continua sendo o nome que serve de régua para medir qualquer novo fenômeno do futebol.

Nenhum outro atleta, em qualquer modalidade, permaneceu durante tanto tempo sendo a principal referência para todas as gerações que vieram depois, de forma que Pelé não sobreviveu apenas ao tempo, sobreviveu a todas as comparações.

Como definiu de forma magistral Armando Nogueira: “Pelé já era o melhor muito antes de ser e continua sendo mesmo depois de ter sido.”

E talvez nenhuma frase consiga traduzir tão bem sua essência quanto esta: “Se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola.”

 

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