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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

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Barretos perde mais do que nomes: perde referências

Barretos acordou mais silenciosa nos últimos dias. Não é exagero — é constatação. A cidade perdeu duas figuras que, embora em campos diferentes, ajudaram a sustentar aquilo que realmente importa: identidade e convivência.

De um lado, José Brandão Tupynambá, o Tupy. Último fundador vivo da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, peça-chave da engrenagem que transformou uma ideia em um dos maiores símbolos culturais do país. Não se trata apenas de um evento. Trata-se de um ativo econômico, turístico e, principalmente, emocional. Tupy não era coadjuvante — era estrutura. Era de uma geração que não esperava acontecer, fazia acontecer.

De outro lado, José Antônio dos Santos de Oliveira, o Zezé. Aqui, o reconhecimento não veio por títulos oficiais, mas pelo que realmente importa no cotidiano: presença. Comerciante, empreendedor, persistente. Errou, acertou, tentou de novo. Seu negócio virou referência, não só pelo serviço, mas pela relação construída com as pessoas. Zezé não vendia apenas roupas — participava de momentos. Isso não se mede em números.

E é justamente nesse contraste que está o ponto central.

Barretos perdeu, ao mesmo tempo, o símbolo e a base. O homem que ajudou a projetar a cidade para o Brasil e o homem que ajudou a sustentar a cidade no dia a dia. Um construiu legado institucional. O outro, legado humano.

Há uma tendência perigosa em cidades como Barretos: valorizar excessivamente o que é grandioso e esquecer o que é cotidiano. Só que uma coisa não existe sem a outra. A Associação Os Independentes não seria o que é sem uma cidade viva por trás. E uma cidade viva depende justamente de pessoas como Zezé — que abrem, insistem, tentam, caem e continuam.

Mais do que lamentar, é preciso interpretar.

A morte de Tupy encerra um ciclo histórico. Ele era o último elo direto com a origem de um dos maiores orgulhos locais. Isso não volta. Já a partida de Zezé escancara algo mais atual: estamos substituindo essas figuras? Estamos formando gente com essa disposição de construir, tentar, persistir?

Porque o risco é claro.

Quando uma cidade passa a viver apenas da memória, ela deixa de produzir futuro. E Barretos flerta com isso quando celebra muito o que já foi feito, mas investe pouco em quem está fazendo agora.

O legado deixado é simples — e exigente.

De Tupy: visão e coragem de pensar grande. De Zezé: resiliência e humanidade para sustentar o dia a dia.

Se esses dois elementos não caminham juntos, o resultado é desequilíbrio. Ou vira espetáculo sem raiz, ou rotina sem ambição.

Barretos perdeu dois nomes. Mas, mais do que isso, recebeu um recado. Cabe agora decidir se será apenas uma cidade que lembra… ou uma cidade que continua.

Igor Sorente é jornalista.

 

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