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O Homem é Capaz de Deus
Por Pe. Ronaldo José Miguel, Reitor Seminário de Barretos.
O Capítulo Primeiro do Catecismo da Igreja Católica (CIC), intitulado “O Homem é capaz de Deus” (nn. 27–49), apresenta a base antropológica da fé cristã. Antes de falar da Revelação, dos sacramentos ou da moral, a Igreja afirma uma verdade fundamental: o ser humano possui, em sua própria natureza, a capacidade de conhecer e buscar a Deus. Essa afirmação não nasce de um otimismo ingênuo sobre as forças humanas, mas do reconhecimento de que o homem foi criado por Deus, para Deus e orientado a Ele. A abertura ao transcendente não é um acréscimo externo à vida humana, mas parte constitutiva de sua identidade. O Catecismo afirma de modo claro: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus” (CIC, 27). Essa afirmação ecoa a tradição bíblica e patrística. O ser humano experimenta uma inquietação interior que nenhuma realidade finita consegue satisfazer plenamente. Riqueza, poder, prazer ou conhecimento não preenchem o anseio mais profundo do coração humano. Essa busca revela uma abertura ao infinito, ao absoluto, ao próprio Deus. Santo Agostinho expressa essa verdade de forma clássica: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” Assim, a busca por sentido, verdade e felicidade não é mero fruto da cultura ou da educação, mas expressão de uma vocação ontológica: o homem é um ser chamado à comunhão com Deus. O Catecismo ensina que o ser humano pode chegar ao conhecimento de Deus por meio da razão, a partir da criação: “A partir da criação, isto é, a partir do mundo e da pessoa humana, o homem pode, com a luz da razão, conhecer com certeza a existência de Deus” (CIC, 31). Contudo, esse conhecimento natural é limitado. A razão pode chegar à certeza da existência de Deus, mas não à plenitude do seu mistério. Por isso, a Revelação é necessária. Apesar dessa capacidade natural, o Catecismo reconhece as dificuldades do ser humano para conhecer a Deus: “Esta capacidade de conhecer a Deus pode ser obscurecida pelas condições históricas, sociais e psicológicas do homem” (cf. CIC, 37). O pecado, o sofrimento, as ideologias, o materialismo e a indiferença religiosa podem desviar o homem de sua busca por Deus. Muitas vezes, Deus é esquecido, negado ou substituído por ídolos modernos: poder, ciência, dinheiro ou ideologias. Deus se dá a conhecer progressivamente na história da salvação, culminando em Jesus Cristo. Nele, o mistério de Deus se torna acessível, próximo e pessoal. A Revelação não anula a razão, mas a eleva e a orienta para a verdade plena. Assim, o homem não apenas busca Deus: ele é buscado por Deus. Mesmo em meio às fragilidades humanas, permanece no ser humano o desejo de infinito. Em um mundo marcado pelo secularismo e pela perda do sentido, a afirmação de que “o homem é capaz de Deus” não é apenas doutrina: é esperança.