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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Artigos

Onde faltam as palavras, impera a violência

Palavra, do latim, verbum, palavra, fala, falar. E o que seria a fala? O ato da fala é um dos mais complexos exercícios, envolvendo processos cognitivos, executivos e motores.

E seria ela, apenas algo que levamos milênios para adquirir em ordem de facilitar a nossa comunicação? Para facilitar a comunicação, entendem uns. E não está errado. Entretanto, podemos enxergar aí, algo para além do verbo, transpondo da palavra a sua importância para as relações humanas, para a construção de vínculos, de laços de fraternidade, amor, para elaboração da música, da literatura, das artes em geral.

Mas, o que dizer da falta do diálogo numa relação familiar, na deflagrada de uma guerra, num tiro disparado à queima-roupa, num atirar o outro da beirada da ponte? A violência, em todas as suas formas e manifestações pode ser entendida como uma resposta à impossibilidade de verbalização de conflitos internos. O que são os tiros nos bares, cenas infelizmente, tão comuns após o etílico circulando nas veias? Faltam palavras e sobram atos? Quando um sujeito se vê diante de emoções intensas, traumas não elaborados ou desejos reprimidos, pode tornar-se propenso, na tentativa de externar o seu mundo subjetivo, a manter-se numa comunicação primitiva: o que não pode ser dito escapando por braços, pernas, mãos, socos, pontapés e tapas.

Assim, aplicou-se a escuta? Houve/ouve diálogo? O que vocês, leitores, pensam sobre? O que pode vir a ocorrer quando faltam palavras, quando a capacidade de nomear e dar sentido às experiências inexiste?

E o que pode ser o não-dito? Tudo que está retido, que foi reprimido, recalques não verbalizados, algo como se o sujeito constituído pelo seu biopsicossocial, acumulasse pulsões de raiva, dores, rancores, frustrações, desafetos, desamores, e, devolvesse toda essa energia amordaçada em forma de atos violentos deflagrados contra o outro e até contra si mesmo.

A falta de amor, de um lugar seu, um colo para acolher, onde compartilhar sentimentos e experiências contribui para o silenciamento de vozes que, se ouvidas, poderiam reverberar na resolução de conflitos. Assim, a violência, pode ser vista como um grito de socorro, um apelo desesperado por reconhecimento e entendimento.

Freud nos disse: a cura está na fala. Falar, neste contexto, está para além de ser apenas comunicação. Falar é também parte do processo para a elaboração psíquica, como na intervenção terapêutica, quando a associação livre de ideias ocorre durante as sessões.

Assim, entende-se que a escuta atenta do sujeito, livre de julgamentos, reconhecendo e acolhendo a subjetividade, a sua singularidade, possa facilitar o caminho para o diálogo, reduzir a incidência de atos violentos e, favorecer a promoção da saúde mental e o bem-estar, capacitando-o a nomear emoções, adjuntos favoráveis na prevenção da violência.

Por outro lado, a violência também pode ser analisada sob a ótica das relações interpessoais e o que por vezes se observa, é uma projeção de conflitos internos, onde a incapacidade de lidar com a própria dor, leva ao ataque do outro, numa forma de desviar a atenção do sofrimento pessoal. Assim, o que não se consegue acessar dentro de si mesmo, retorna num ciclo vicioso de agressão e dor, levando o sujeito ao looping da repetição.

Em suma, ao darmos voz ao que está silenciado, ao transformarmos o não-dito em palavras, abrimos caminho para a empatia, a compreensão e, acima de tudo, a promoção do bem-estar. A psicanálise nos oferece um convite para esse olhar interno e externo, buscando sempre na palavra a constituição de um mundo mais justo e menos violento. Portanto, que a frase “onde faltam as palavras, impera a violência” sirva como um alerta sobre a necessidade de promover espaços de diálogo e compreensão.

Sada A. Ali

CRP 06/166892

Psicóloga Clínica

Hospital São Jorge

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