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O Amor, a efemeridade e a Psicanálise
O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman propôs a dimensão líquida das relações: amor líquido, vida líquida, medo líquido. Bauman, referindo-se à fragilidade e à superficialidade das relações afetivas na modernidade, argumenta que consumismo e efemeridade podem banalizar as relações amorosas e as amizades tendendo às emoções tornarem-se mais passageiras fluidas e utilitárias.
Mas por que iniciar o artigo mencionando a liquidez das coisas? E por que esta ideia contrasta com o amor sólido, de laços mais duradouros e profundos ainda presente na memória dos saudosistas? Seria esse o ideal? Existe o ideal? O idealizado sabemos que sim!
Ao relacionar o conceito de amor líquido com a Psicanálise, podemos observar como esses vínculos superficiais impactam a saúde mental e a estrutura psíquica dos indivíduos. Assim, ao explorarmos o inconsciente e como nos comportamos nas relações afetivas, tentamos obter uma compreensão mais profunda das motivações e medos que permeiam as nossas relações.
Sigmund Freud, o fundador da Psicanálise, acreditava que o amor estava profundamente enraizado em instintos biológicos e psíquicos. Para Freud somos pulsões e, o amor romântico, por exemplo, muitas vezes se configura como uma repetição de padrões da infância, especialmente nas relações que a criança estabelece com os pais. O desejo e a libido, forças motrizes do ser humano, manifestam-se no amor, onde a busca pelo outro pode ser vista como uma tentativa de preencher lacunas emocionais, um reencontro da segurança perdida nos ecos da infância.
A terapia pode nos revelar sentimentos, recalques, razões do porquê assim amarmos ou desejarmos ser amados. Ao explorarmos nosso mundo interno, nos tornamos mais abertos a construir relações mais autênticas e enriquecedoras, permitindo que o amor se manifeste não apenas como uma emoção, mas como uma experiência de autoconhecimento e crescimento mútuo. Ou ainda, deixar de ser o que se pensou ser até então. Amar pode ser, também, juntar sintomas, os do outro aos próprios – e isso também pode dar certo.
Podemos pensar no amor como um espaço onde luz e sombra, prazer e dor se encontram. Essa conexão propicia também a revelação de medos e inseguranças. Assim, na prática clínica, o amor muitas vezes surge como tema central nas vidas dos pacientes.
Relações amorosas podem ser fontes de alegria, mas também de sofrimento. As queixas sobre amor, ciúmes, inseguranças e desilusões tornam-se pontos de partida para o processo terapêutico. Muitos enfrentam a dificuldade de se comprometer emocionalmente, carregando o peso de expectativas irreais e do medo do abandono. Isso se reflete também na cultura das redes sociais, onde a busca por validação e atenção se torna uma constante. O quanto pode valer uma curtida para quem recebe tão pouca afetividade na realidade?
A terapia pode nos convidar a explorar essas questões, permitindo que reconheçamos sentimentos ocultos, promovendo um caminho para relações mais saudáveis e conscientes. Através da escuta atenta e da interpretação, a psicóloga ajuda o/a paciente a acessar suas emoções mais profundas e a entender os mecanismos que governam seus relacionamentos. Talvez, aí, faça sentido o parágrafo acima, quando mencionamos a volatilidade de tudo, e o quanto, às vezes, podemos caminhar para relações fugazes. Seria o medo do sofrimento? Do jogar-se e se perder?
Amor líquido e Psicanálise se entrelaçam na busca por compreender e ressignificar as relações afetivas, permitindo que o amor seja, apenas seja, mesmo em meio às demandas da vida moderna.
E seja como você desejar! Jogar-se ou não!
Só você decide!
Sada A. Ali
CRP06/166892
Psicóloga Clínica Hospital São Jorge