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O Luto, a poesia de Drummond e a Perspectiva Psicanalítica
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
E hoje para vocês, meus queridos leitores, apresento a Psicanálise, a Literatura e a Poesia conectadas como nesse trecho do poema, Resíduo, do poeta, Carlos Drummond de Andrade. Esse trecho da poesia de Drummond nos permite traçar uma analogia entre o conceito do Luto em suas diversas magnitudes. E o que é o luto senão o que nos restará em algum momento da vida?
Mas se você pensou apenas na partida final, enganou-se. O luto abrange o fim do relacionamento, a perda de um emprego, a perda de um sonho, uma ilusão, um membro, um jogo, um desejo. O luto é uma experiência universal que podemos enfrentar em algum momento da vida. Na psicanálise, o luto é visto como um processo complexo que envolve não apenas a dor da perda, mas também a integração de novas realidades emocionais e psíquicas.
O luto é um processo intrinsecamente humano, que exige tempo e espaço para ser vivido plenamente. A psicanálise oferece ferramentas valiosas para ajudar a navegar por esse caminho doloroso, promovendo a cura e a integração da perda.
Assim, nos restará um pouco das risadas de um dia qualquer, um outro tanto dos abraços recheados de alegrias e dores, dos silêncios que falam além das palavras. Em cada fragmento há um pedaço de vida, uma lembrança sutil que resiste ao tempo e à distância.
Freud, em seu ensaio “Luto e Melancolia”, descreve o luto como uma resposta emocional à perda de um objeto amado, seja ele uma pessoa ou um ideal. Ele distingue o luto ‘normal’, que leva à aceitação da perda, à do luto patológico, que se prolonga e impede a elaboração da dor.
Freud destaca que, essa elaboração é crucial para que o indivíduo consiga seguir em frente. A fase de negação inicial pode ser seguida pela tristeza profunda, eventualmente levando a adaptação, no entanto, quando o luto impede o indivíduo de retomar sua vida, pode ter se tornado uma patologia. A psicanálise intervém na identificação dessas fases e oferece espaço para a expressão e elaboração da dor.
Assim, esse luto que, Drummond, genial em sua poesia, sugere abafar com o aroma perfumado da loção preferida, precisa estancar suas energias para a entrada do novo e, gastar essa energia, psicanaliticamente falando, significa obter novas energias e investi-la em um outro objeto, numa fonte nova da libido, que pode ser na entrada de um amor, uma viagem, um novo emprego, algo que permita ao sujeito recuperar o desejo de tentar novamente.
E por fim, no luto, o inconsciente desempenha um papel vital, onde todo o peso da perda pode ser elaborado através de sonhos e fantasias. Mecanismos de defesa podem surgir, e a psicanálise auxilia o indivíduo a acessar essas partes inconscientes para facilitar a elaboração e a aceitação da dor.
Que as reminiscências se transformem em ensinamentos; que do que ficou, possamos elaborar um futuro mais leve, onde cada fragmento de dor se mescle com a beleza do que ainda está por vir e, que ao final, a essência das memórias nos lembre não só do que perdemos, mas de tudo o que ainda podemos ganhar.
A vida é um constante abrir de janelas, uma dança entre o que se foi e o que ainda pode ser. Vamos abrir as janelas, deixar que o ar fresco entre e, que o cheiro doce das novas possibilidades invada os espaços sombrios do nosso ser.