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De Hipócrates aos tempos de exploração do Médico moderno
Ilha (grega) de Cós, século V a.C, berço de Hipócrates e da Medicina, marca uma evolução da Medicina Antiga ganhando, à época, avanços que o marcaram como o “Pai da Medicina”, respeitado até hoje. De seu estilo relacional, mais do que usando aparatos técnicos, ficou uma marca do perfil comportamental que deve ter um profissional verdadeiramente Médico: calcado na sua relação com o paciente.
Houve uma Medicina que pudemos aprender com gerações inteiras, configurando-se, perante a sociedade contemporânea, como cidadãos de absoluta confiança das famílias. Razões para isso foram fatores como: necessidade de vocação verdadeira a qual exigia suplantar dificuldades para conquistar vaga em faculdade, compromisso com a entrega ao paciente e fibra para suportar o que é incurável, compensado pelo prazer em conseguir fazer o bem.
Esse é o típico e clássico modelo de Medicina aprendido e exercido na Europa e na América do Norte.
Dois milênios e meio se foram, e aterrissamos numa opção de prática médica em que médicos e paramédicos foram transformados (hoje) em ferramentas nas mãos de exploradores e garimpeiros de riquezas fáceis. A maravilha da relação médico-paciente passou a ser coisa secundária e até inconveniente na visão do explorador da saúde e da Medicina.
E qual é a realidade piorada? Há uma rotatividade em mãos de “ferramentas” pobres de conhecimento, experiência, vontade e carisma.
Esse é o quadro em que a Medicina chamada relacional (de atendimento) passou a ser um eixo de obtenção de vantagens negociais, usado para gerar ganho de dinheiro por figuras que objetivam claramente a riqueza pessoal ou grupal.
Figurativamente, é como se buscasse soluções médicas nas prateleiras de um supermercado (leia-se aqui, o apoio e papel do Google) vindo fazer frente ao clássico modelo romântico, humanista e competente por ser servido pessoalmente, com esmerado preparo, atendendo o Homem com completude.
O que aconteceu de poucas décadas a esse momento?
A volúpia e ganância de ganhar dinheiro, típica do homem explorador, enxergando a Medicina como profissão promissora e rentável, diante da procura desesperada de vagas, motivou empresários e empresas a criarem novos modelos de ensino, sem se preocupar com a qualidade do “produto” e com a vida do “consumidor”.
Pois bem: o Brasil passou a ter, atualmente, 356 faculdades de medicina, quando tinha há 25 anos, em torno de 86. Para se assustar, hoje os EE.UU da América, têm em torno de 177. A metade de faculdades com 50 por cento de população a mais que nosso País.
Um dos tipos de ensino é chamado de PBL, do inglês, Problem Based Learning, que elenca cerca de 300 doenças mais comuns e se ensina como “enfrentá-las” sem o aprofundamento do conhecimento que caracteriza o modelo clássico. Choca e confronta com o modelo ensinado em nossas escolas oficiais e públicas, como é o modelo Americano/Europeu.
Por que ser assim no Brasil? É simples a resposta. Não há como negar que somos um povo maravilhoso, porém, que inclui grandes “garimpeiros” de negócios rentáveis sem se preocuparem com os meios e as consequências.
Para isso não seria preciso uma regulação governamental? Claro que sim. Acontece que somos, ao mesmo tempo, um paraíso de frouxidão, corrupção, irresponsabilidade tudo temperado com malandragem e malandros, até numa área do ensino de uma sagrada profissão como a Medicina. Isso aconteceu e vem acontecendo.
Quer melhor exemplo da bandidagem brasileira em receber os chamados Mais Médicos em conluio com governos que os “produziram” jamais se preocupando com os impactos na população atendida?
É resultado da deletéria combinação: formação precária por cursos de baixo nível, treinamento (quando houver) por Residências Médicas escassas, “serviçais” e exploradas como mão de obra barateada, a excessiva oferta de formandos ao final de cada ano, a gana por enriquecimento dos empresários e a passividade do controle pelos Governos, tudo culminando numa festa ou farra, sem pensar nos prejudicados que são os usuários.
Se esse quadro acontece em muitos lugares que já reclamam, não podemos permitir que em Barretos o poder público, diretamente responsável, passe para terceiros um desqualificado padrão de assistência médica ambulatorial e hospitalar.
O agravamento disso para Barretos é que fica penalizada por um monopólio que elimina a concorrência para ofertas de salários dignos e justos, ficando os médicos sem perspectiva de carreira e estando constantemente sujeitos a serem dispensados ou despedidos. Manobrados por constante troca de novos e mais barateados profissionais, sendo isso já uma regra, com evasão de excelentes colegas em nível de centenas que foram embora de forma fria, injusta e lamentável.
Uma consequência natural: vai aumentando uma fama já ruim de que aqui predomina um monopólio que não garante segurança profissional a médicos gabaritados. Portanto, chance zero de inovação com qualidade.
Que invocações de “conversas com Deus” como proteção espiritual, bem como a habilidosa arte de colher ajudas financeiras, não sejam cortinas de fumaça a acobertar os péssimos resultados que ora são assistidos, a todos os barretenses, mormente, os mais pobres.
De olho numa dura realidade que não pode ser perdida de vista.
Dr Fauze José Daher
Gastro-Cirurgião
Ex Diretor Clínico da
Santa Casa de Barretos,
Ex Presidente da Assoc.
Paulista de Medicina – Reg.
de Barretos e Advogado